segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Enterro dos Ossos

[...]Amar é qualquer coisa de mais grave e significativo do que o entusiasmo pelas linhas de um rosto e a cor de uma face; é decidirmo-nos por um certo tipo de ser humano que é simbolicamente anunciado nos pormenores do rosto, da voz e dos gestos.

O amor é uma escolha profunda. (Ortega y Gasset)




Ela e suas circunstâncias  [parafraseando Ortega y Gasset]
Vivera aquele Natal cálido e chuvoso
Metida num frente-unica amarelo,
Pés vestidos de esmalte carmim
Envolta num blois encarnado
Nos cabelos flores,
Na boca, apenas o sorriso largo.
Frida Khalo em pleno Pedro Almodóvar.
Viveu a celebração dos afetos reais
Abandonou os abraços partidos
Dependurados [na chuva]

Não se abandona mais, não há perigo.
Era agora o que sempre fora e não havia se dado conta:
Uma mulher como poucas
Uma mulher para poucos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

A Ceia de Natal

Eu dizia das mulheres da minha família na cozinha em época de Natal. Dizia das lembranças dos odores, dos sabores daqueles deliciosos Natais em família.

A cidade em que moro tem uma significativa parcela de moradores sazonais. Nesta época do ano, muitos, por razões profissionais, não podem ir ver suas famílias nos estados de origem.

Eu, de outro lado, a cada dois anos fico sem filh@s no Natal. Coisas de uma mulher separada. Natal de pai. Nessas ocasiões realizo lá em casa o Natal do MSF_BSB. O que significa? Bem, Movimento dos Sem Família em Brasília.

Este ano terei um desses maravilhosos Natais entre amig@s querid@s. Há duas semanas venho testando receitas, pensando o menu, experimentando misturinhas, sabores e preparando os presentes - feitos por mim, um a um - para as pessoas maravilhosas que estarão comigo esta noite.

Fiz azeite aromatizado. Doce de cupuaçu aromatizado com pimenta da jamaica (experiência), biscoitos amanteigados e antepasto de bacalhau (receita maravilhosa, testada e aprovada, do pai do meu grande amigo Tibagi). Estão lindamente acondicionados em potes de vidro decorados [by myself]. Tudo simples, mas feito com muito carinho e dedicação.

Em cada pote uma parte de mim, um pedacinho do enorme afeto que sinto pel@s que receberão a dádiva. Demonstração de todo o amor que posso compartilhar, de tudo de bom que tenho para dar, porque

É NATAL, E TODOS TEMOS DIREITO A ACONCHEGO, AFETO, AMOR, AMIGOS POR PERTO.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

É Natal...

Costumo ser mordida pelo bicho-resmungão no Natal. Não sei o porquê. Tive experiências ótimas de Natal. Em minha família sempre foi uma festa linda, com todos os tios e tias, primos e primas reunidos em torno do patriarca e da matriarca da família de minha mãe.

Passava o ano inteiro esperando por aquelas férias, pelo Natal. As mulheres reuniam-se na cozinha para preparar os acepipes, enquanto os homens (cultura patriarcal é uma 'graça) passavam o dia jogando War, bebericando whisky ou cerveja e comendo as delícias que saíam periodicamente da cozinha.

Eu, filha primogênita, neta primeira, primeira sobrinha da família (e muito metida) ficava com o segundo grupo. Pode ser uma surpresa para aqueles que me conhecem e sabem de meu amor pela culinária, pelas panelas, temperos, sabores. Mas é verdade. Ficava com os homens da família jogando War, e, não raras vezes, venci os marmanjos do alto de minha precocidade.

Os dias passavam assim, entre risadas, sabores, companheirismo. A noite de Natal, em que sempre nos arrumávamos com roupas especiais, era linda para nós. Só muito mais tarde me dei conta de que em algumas famílias não há boas lembranças, em outras sequer há lembranças. Mesmo a tradicional briga da véspera, hoje tem gosto de saudade. Era seguida de pedidos de perdão emocionados, abraços e afetos. Éramos uma família grande e feliz.

Quem conhece meus textos anteriores sobre o Natal 2006 e sobre o Natal 2007 sabe que tenho sido por vezes ácida/irônica, outras panfletária. Os textos anteriores em nada lembram uma Poliana natalina, com estrelinhas nos olhos, convicta de um mundo melhor.

A verdade é que vinha guardando minhas convicções para os outros 364 dias do ano e no Natal, escrevia na contra-mão do universo. Nada de Jingle Bells. Esse ano, minhas lembranças de família falaram mais alto que qualquer contra-mão e resolvi honrar a tradição do ''Natal tempo de Harmonia e de Fraternidade''.

Sim, o Natal é especial para mim. Sempre foi parte de minhas mais doces lembranças de infância. Este ano, Feliz Natal para Todos/Feliz Natal! Celebremos a AMIZADE, o AMOR, a PAZ e a HARMONIA, porque


TODOS TEMOS DIREITO A ACONCHEGO NO NATAL.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Para Refletir

Não sei se a história se repete ou se sou eu que repito a história.

domingo, 13 de dezembro de 2009

V - Carta de Anita Lopes a Caio Marques

Caio,

Ontem à noite resolvi sair sem direção para refrescar as idéias. Faz um enorme calor por aqui. Enquanto passava pelas ruas, dei-me conta de como essa cidade é viva. Já passava das dez da noite e as pessoas passeavam como se fosse o entardecer.

Vi um homem comendo pipoca embaixo de uma árvore a pensar na vida. Outro palitava os dentes despreocupado. Havia negros, brancos, mestiços. Uma mulher conduzia seu bebê num carrinho. Muita vida na cidade, fiquei extasiada.

Não costumo sair à noite. Desde que cheguei aqui, evito. Muito porque fui advertida sobre os perigos de transitar à noite pelas ruas, muito porque sou diurna, você bem sabe. Ontem, ao percorrer as ruas da cidade, sentindo o ar morno na pele, vendo todas aquelas pessoas despreocupadas aproveitando as horas, percebi quão falaciosa poderia ser a advertência.

Vi meninotas brincando nas calçadas, tomando coletivos. Vi casais de namorados, vi gente passeando nas areias da praia. Vi a vida da cidade pela primeira vez em meses. Percebi que não estava vivendo o lugar, que estava reclusa, completamente cooptada pelas questões políticas, descolada das pequenas coisas do dia-a-dia da vila.

Meu querido, como foi bom sentir-me parte desse lugar pela primeira vez. Quis que estivesses aqui para juntos observarmos os passantes, adivinhando-lhes a história. Lembrei-me da última vez que viestes me visitar e até de nossa divergência com alguma saudade.

Sim, as saudades são imensas. Porém, agora deixo-te, domingo é dia de feira e sabes como gosto de passear entre os gritos dos feirantes agitados nas manhãs de domingo.

Sua,

A.L.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Uma Vez Flamengo, Flamengo até morrer...

Uma vez Flamengo, flamengo até morrer (...)


Ainda me lembro o dia em que comecei a me interessar pelo Flamengo. Devia ter uns sete a oito anos de idade. Naquela época havia um album de figurinhas com jogadores de futebol e times. Meu melhor amigo, Paulo A., era torcedor doente do Flamengo. Ele tinha todas as figurinhas e mais algumas. Era época de Toninho Cerezo [oops Toninho nunca jogou no Flamengo, mas no Atlético Mineiro]*, Cláudio Adão no time. E eu ficava fascinada com tudo o quanto ele me contava. Ouvia atenta as estórias.


No entanto, futebol nunca foi uma paixão em minha casa. Assim, eu me tornei torcedora do time, mais por sociabilidade que por convicção. Em minha família, futebol só nos tirava de outros programas se fosse na Copa do Mundo, jogo da seleção brasileira.


Mais tarde, ao me casar reafirmei minha torcida pelo Flamengo. Mais para ser ''do contra'' - ele era vascaíno - que por convicção (de novo). Sempre gostei de vermelho e preto, as cores de Paloma Picasso, por aí se tira minha paixão pelo futebol.


Hoje, assistia ao jogo, reafirmava minha torcida ao rubro negro. Ao lado, inflamado, um colorado apostava na calhordice do co-irmão 'Grêmio'. Conforme os minutos passavam, mais me convencia - anote Luís Fernando Veríssimo - que o co-irmão não ia entregar o jogo, como todos os colorados apostavam.


Ao contrário, vi o Grêmio cheio de garra e vontade de vencer partir para cima de um Flamengo ansioso, por vezes perdido e algo desorganizado em campo. Enquanto isso, no Beira Rio, o Colorado ia dando de lavada no Santo André - quem? - sim, no Santo André, que caiu para a segundona.

O jogo corria quase fácil no Beira Rio, enquanto o Grêmio suava a camisa para reafirmar a vitória de seu arqui-rival. Caso o Grêmio empatasse ou vencesse o rubro-negro, o Inter comemoraria o tetra campeonato, após trinta anos de espera e no ano de seu centenário. Seria 'a glória!'.


No Maraca, não apenas o Grêmio se esforçava por colaborar com a vitória do Inter, como também o Flamengo com seu tom de jogo parecia querer entregar a taça aos gaúchos. Grêmio abriu o placar, contrariando todas as expectativas dos colorados que apostavam na calhordisse. O Flamengo abalado pelo gol do Grêmio, ficou ainda mais sem rumo dentro de campo.

O Inter, em perfeita sintonia com o Grêmio (quem diria), balança a rede no Beira Rio, quase ao mesmo tempo, para desespero completo dos flamenguistas. No Maracanã, o Flamengo não era um time. Até que num lance conseguiu, sabe Deus como, empatar o jogo. Mas não bastava empatar, o time tinha de vencer. E a agonia continuava no Maracanã lotadérrimo. Goooooll do Inter em Porto Alegre: Inter 2 x 0 Santo André. Fim do primeiro tempo.


De volta ao campo, Inter tetra campeão brasileiro em seu centenário. A bola rola no Maracanã: nada de gol. Inter 3 x 0 Santo André, vai sagrando-se campeão brasileiro ''quase sem esforço'' e a despeito de tudo o que falaram dos gremistas. E o jogo segue. Àquela altura me dei conta que o Fla não estava merecedor do título. Via um Grêmio aguerrido lutando por preservar sua honra, um Inter implacável defendendo a taça. E o Fla lá... Tocando a bola.


Bem, é o ano do centenário do Inter. Aquele time que foi criado para acolher a diversidade, enfrentar a xenofobia há cem anos atrás. Convicta que sou no futebol, fiquei a pensar: os colorados bem que merecem esse tetra, afinal é o ''ano-do-centenário-do-time'', o Fla não tá jogando nada e o Grêmio está mostrando-se profissa e bom de bola.


Ingredientes perfeitos para uma virada de casada depois de dezenas de anos desde minha apresentação  ao Cláudio Adão, depois de Júnior e do Galinho de Quintino. Afinal, qual o problema? Só assisto jogo de futebol da seleção brasileira e em Copa do Mundo. Minha sólida convicção estava seriamente abalada e o Inter faz mais uma entrar. Inter 4 x 0 Santo André. E o Flamengoooooolll de novo. aí complicou. Estava certa da vitória do Inter. Não era justo. O time jogou melhor, o Grêmio foi honrado e o Fla na lerdeza ia levar?!


Afinal, por quem mesmo que torci nas últimas décadas? Lá estava eu, xingando pela bola perdida pelo Grêmio, torcendo para que o co-irmão enfiasse mais uma no Fla. Vira-casaca total. Em minha defesa tenho a dizer que além de jamais ter sido convicta de minha torcida, sempre fui coerente com a justiça. E, acreditem, o Inter, neste caso, merecia mais. Afinal,


TODA MULHER TEM DIREITO A VIRAR A CASACA, MESMO QUE SEJA NO ANO DO HEXA CAMPEONATO DO TIME QUE COSTUMAVA CHAMAR DE SEU.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

IV - Carta de Anita Lopes a Caio Marques

Caio,

Desta vez não poderei me alongar. O Conselheiro de Finanças acaba de entregar o cargo e há grande tensão por aqui. Sérgio V. sempre foi um homem íntegro e por um bom tempo tentou, sem êxito, mostrar ao Primeiro Ministro que a forma como estava conduzindo as coisas deixava margem para problemas de ordem legal. No entanto, a Ordem dos Conselheiros Mais Próximos não apenas insufla o Primeiro Ministro a tomar medidas questionáveis, como também zomba das recomendações do Conselheiro de Finanças.

Não sei como ficaremos eu e R. sem o Conselheiro de Finanças a nos orientar e nos proteger de desmandos. M. pediu a R. calma. Há rumores de que o Conselheiro de Políticas do Primeiro Emprego responderá pela pasta de Finanças. Por outro lado, o Bufão-mor da província arvora-se a Conselheiro de Finanças, distribuindo sorrisos e gracejos pelos corredores do Palácio. Fortes ventos tentam colocá-lo na posição vaga, mas soube que há resistência por parte da Ordem dos Conselheiros Mais Próximos.

Meu querido, temo que em breve eu deixe a província. Não poderei permanecer violando princípios e valores que me orientaram por toda a vida. Sinto pelo Primeiro Ministro, homem por quem aprendi a nutrir grande afeto. Se houver oportunidade, veja se há por aí alguma colocação compatível com meus saberes e fazeres.

Sua,

A.Lopez

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Estrangeira





Sou estrangeira na cidade em que moro há 22 anos. Dramática descoberta feita ontem, depois de um vago olhar para o céu nublado. Caiu como uma tampa de bueiro em minha cabeça. Encheu-me de dúvidas: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Não tendo respostas vou no mais fácil, as conclusões do dia:

Faço parte do grupo de habitantes ''sazonais'' de Brasília. É verdade. Minha vida aqui se resume a Esplanada dos Ministérios, isto é, ao governo federal. Tal qual uma desterrada vivo meus dias como se estivesse de passagem por aqui. Não participo da vida da cidade, não escrevo indignada para a coluna Carta do Leitor dos jornais locais. Sequer assino ou leio os jornais da capital. Embora eventualmente escreva indignada para o Fórum do CongressoemFoco

Estou atônita pois há muito escolhi Brasília para fincar minhas raízes. Declarei ainda, aqui mesmo na blogsfera, mais de uma vez meu amor pela cidade. Mas será que podemos amar aquilo ou quem não conhecemos?

Preciso admitir: Eu não conheço Brasília realmente, embora tenha sempre na ponta da língua ótimas dicas de lugarzinhos charmosos, botecos saborosos, passeios idílicos na capital federal e em seu entorno. Não conheço a cidade que chamo de minha. Dela apenas sei a face exposta, a mais visível, os subterrâneos não estão no meu cardápio.

Então, o que é essa atração irresistível por suas retas e curvas, pela imensidão azul que cobre e descobre meus sonhos, pelos kilômetros de verde que me cercam? O que é esse prazer em estar aqui simplesmente? O que é o encantamento pelos ipês coloridos, pela flor da paineira, pelo verdejante gramado do Congresso após a primeira chuva depois da seca?

Sei não,mas sinto que é momento dessa relação se aprofundar. É tempo de assumir um envolvimento real com a cidade e criar raízes por aqui. Tempo de participar e me comprometer. Já não quero mais ''ficar'' quero permanecer contigo nos bons e maus momentos.








Respeite os direitos de autoria. Se for citar, dê crédito.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Crise de Identidade




O tempo passa cada dia mais rápido. Este ano vivi muitas experiências interessantes, mudanças de ponto de vista, mudanças de rumo. Um olhar diferente sobre o mundo, o país, as escolhas, os caminhos, as relações.

Nesse contexto, cortei os cabelos, mudei de casa, repensei o relacionamento, abri-me para o novo, para a renovação. A inquietação permanece. Mudei de planos, invisto numa nova profissão - passo-a-passo - e, hoje senti uma profunda necessidade de redecorar o Blog.

Não sei se essa será a aparência definitiva, sequer sei se acredito nisso. Sei apenas que o Blog está em processo de reforma para que possa de fato exprimir quem sou. Convido-os a dar sugestões.

Definitivo, repito, só a mudança.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Hoje é Terça-Feira! É?

Miró



Sim, estou como folha ao vento sendo levada pelo tempo que arrebata.




Hoje é terça-feira! Já?

Sim, o tempo passa e passa. Os dias, as horas, os minutos.

Hoje é terça-feira! Não?

Sim, e o fim de semana habita o tempo que já não existe.

Hojé é terça-feira! Não é quarta?

Sim, não é ontem, nem amanhã.

É hoje: o único tempo que existe

E existindo: voa!

Vai ficando para trás, hora após hora.

A terça-feira passa; eu fico!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

XIII Feira Pan Amazônica do Livro - Aí vou eu!!!


Momento diário íntimo [em público]= gritar para o mundo o que está acontecendo, o que estou sentindo.




Bem... Hoje viajo para Belém/PA. Pode parecer bobagem, mas preciso dizer: Estarei na XIII Feira Pan Amazônica do Livro lendo em público - pela primeira vez - meus poemas!!! Dividirei a mesa com poetas Camila do Valle, Izabela Leal e Ricardo Pinto de Souza.

Estou como criança a espera de presente de Natal(!) e muito honrada que ocorra em Belém, cidade que me alfabetizou.

Estarei twittando, portanto quem quiser acompanhar pode seguir no twitter as impressões e novidades na Feira, a experiência de leitura pública y otras cositas mas. Porque

TODA MULHER TEM DIREITO A SER CRIANÇA E GRITAR SUA FELICIDADE PARA TODA A REDE OUVIR!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

III Carta de Anita Lopes a Caio Marques

Querido Caio,


Receber resposta foi alentador e me encheu de esperanças. Vida nova, nova experiência é sinfonia para meus ouvidos. Tranquiliza-me saber que teu coração está voltado para o presente e, para o futuro. Amo-te. Saber-te próximo nesse momento delicado é muito importante.


A situação política piorou muito. Líderes do LLM foram presos, o que nos deixou muito tensas por aqui. Às vezes irrita saber que eles, embora corretos em sua luta, impulsivamente ''colocam os pés pelas mãos'', perdendo valiosas oportunidades de avançar em seus objetivos maiores. O governo central busca dar solução ao caos que se instalou, mas a instabilidade reina por aqui.


Lideranças locais despreparadas tomaram medidas igualmente impulsivas agravando a situação e os negociadores enviados no primeiro momento não lograram êxito na tentativa de apaziguar os ânimos. Seremos eu e R. designadas para a segunda rodada de negociações. Ainda não decidimos qual será a estratégia, já que a tormenta está cada dia mais intricada.


Seria muito bom que você estivesse aqui. Sua sensatez nesses momentos faz muita falta, assim como sua mão forte segurando a minha. M enviou mensagem a todos nós orientando-nos como proceder doravante. A comunicação foi como um bálsamo, ele sempre consegue transmitir muita tranquilidade a todo o grupo.

Bom, meu amor, por agora tenho de deixá-lo. Amanhã teremos os primeiros encontros para decidirmos a estratégia.


Forte abraço,

Anita

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Manifesto - À Luta, Mulheres

Manifesto em defesa da liberdade e da autonomia das mulheres

NÃO À VOLTA DA INQUISIÇÃO

Mulheres do mundo inteiro lutam há milênios contra as opressões a que foram e continuam sendo submetidas.

Contra a inquisição elas não se calaram e, mesmo sob torturas e mortes, lutaram pelo direito à liberdade. Lutaram por igualdade/liberdade/fraternidade na Revolução Francesa e escreveram a 1ª Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã e, mesmo tendo como resposta a esta luta a condenação à guilhotina, não pararam de lutar.

Conquistaram os direitos civis com as lutas sufragistas, direitos trabalhistas, cidadania e o das últimas décadas do século XIX em diante, acrescentaram o direito de decidir e a autonomia sobre o próprio corpo nas lutas cotidianas.

Nós brasileiras, nos somamos às mulheres do mundo todo, lutando contra a escravidão, contra diferentes ditaduras e tantas outras formas de opressão. Consolidamos direitos iguais como cidadãs e cidadãos na Constituição Federal de 1988, entre eles o direito de ir e vir para todas as pessoas que vivem neste país, independente de orientação sexual, idade, raça/etnia.

A erradicação de toda forma de violência e discriminação contra as mulheres é um compromisso firmado pelo Estado brasileiro em diferentes tratados internacionais de direitos humanos, como: a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir, e Erradicar a Violência contra a Mulher, da OEA (Convenção de Belém do Pará) e da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), da ONU, e em leis nacionais como a Constituição Cidadã e a Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha. E é uma das prioridades nas ações do governo, por meio do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, assumidos pelo Estado de São Paulo e pelos municípios da Região do Grande ABC.

Num Estado de Direito como o nosso, constituído e baseado nos princípios da democracia e do respeito à liberdade e igualdade de mulheres e homens, independente de pertencer a qualquer raça, cor, credo, orientação sexual ou idade; não podemos admitir que atitudes como a das e dos alunos/as da Universidade Bandeirantes (UNIBAN), que no dia 22/10/2009 discriminaram e ofenderam Geysi Arruda, aconteçam de forma impune.

Manifestamos nossa total indignação à violência sofrida pela aluna Geysi Arruda e pelo cerceamento da sua liberdade e exigimos que sejam tomadas todas as medidas no sentido de apurar as responsabilidades por tais atos e que as pessoas envolvidas respondam perante as instâncias cabíveis.

Apelamos para que a UNIBAN promova atividades de esclarecimentos e reflexão sobre direitos humanos e respeito à autonomia das mulheres, como formas de contribuir para a garantia da igualdade entre as pessoas, sem nenhuma forma de discriminação.

Continuaremos lutando sem deixar retroceder nem um milímetro das nossas conquistas, em especial a nossa autonomia.

São Bernardo do Campo, 03 de setembro de 2009.


FRENTE REGIONAL DE COMBATE À VIOLÊNCIA
GRANDE ABC PAULISTA E REGIÃO







Para assinatura pessoal, coloque seu nome/profissão ou atividade / cidade/ estado e envie para o email: manifestodefesaautonomia@gmail.com

Para assinatura como organização ou entidade, coloque o nome da sua entidade/ setor que atua/ nome da cidade / estado e envie para o email: manifestodefesaautonomia@gmail.com

Ou se preferir pode copie e imprima a listagem abaixo, recolha assinaturas e depois envie para o mesmo e-mail acima ou simplesmente assine (com todas as informações necessárias) diretamente no blog http://autonomiadasmulheres.blogspot.com/ na parte “Comentários”.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Carta de Anita Lopez a Caio Marques II

Caio,


A tensão está aumentando por aqui. Cada dia mais angústia, menos paz. Estão todos irritados, mesmo com a proximidade das festas. Como se lhes faltasse algo que nem se sabe se de fato faltará. A ausência dos amigos e das amigas, a distância da família e nos coloca a todos em estado de anseio. Estamos sensíveis e qualquer coisa é motivo para pequenas desavenças, lágrimas e desejo de desaparecer no próximo kilometro. As disputas internas por algum tipo de poder seguem dominando o ambiente, estou cansada. Já não sei qual o sentido de tudo isso se nossas vidas valhem tão pouco.


Os dias passam lentos, enquanto arrastamos nossos corpos dia após dia, noite após noite, em busca de uma solução pacífica para essa situação estapafúrdia. O cansaço já nos tomou. R. continua serena, embora algo distante. A beleza plácida e o andar tranquilo me encantam. Seus olhos não perdem a paz. Com toda a saudade e a distância permanece lúcida tocando as decisões que precisam ser tomadas. M. a reconforta em constantes contatos.


Sinto tua falta, mas sei que escrevo para preencher o vazio que há em mim. A última notícia foi quase telegráfica. Temos notícias que por aí não está fácil igual. Soubemos que muitos estão migrando em razão da insegurança que se instalou por essas bandas. Imagino que não esteja sendo fácil para ti. Viajar horas e horas, pousar em qualquer lugar, comer sei-lá-o-quê. Aqui pelo menos temos o conforto de voltar para algum tipo de lar. Uma noite dormida tem valido ouro.


... Na verdade não tenho parado de pensar em nosso último encontro. Saber que você ainda a ama, me arrebenta o coração. Não entendo por que depois de tudo você ainda me procurou. É como se você fosse uma criança levada que se esconde e deixa o pé de fora. Veio até mim, deixando o rastro de seu eterno amor por ela a mostra. Mas certas coisas não têm explicação: você voltar; mostrar que ainda a ama; e eu te aceitar.


Por agora, meu querido é o que tenho a dizer. Fique bem.


ALopez

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Carta de Anita Lopez a Caio Marques






Caio,

Há semanas não tenho notícias suas. Tantas coisas aconteceram desde que você partiu para o Norte. Estou certa que tem acompanhado pela imprensa, mas a situação política entre nossos vizinhos anda delicada. O presidente adotou medidas duras – embora justas – e está mantendo-se firme. Talvez tenha de ser deslocada para missão de negociaçao. Ainda não sabemos, mas torço sinceramente ser designada. Sílvia é muito competente, mas às vezes sinto que ela não enxerga todas as possibilidades em momentos de maior tensão política. De qualquer modo, estou certa que o melhor haverá de acontecer.

Encontrei-me outro dia com R. Ela é uma mulher interessantíssima e de uma placidez que me dá inveja. Sua auto-confiança é perceptível, morar longe do companheiro e manter-se nessa fleuma notável. Ainda mais se tratando de um homem tão inteligente e interessante quanto M. Sei que já falamos sobre esse assunto, mas você faz questão – todas as vezes que estamos mais próximos – de reafirmar a distância entre nós. Por outro lado, diante de todos trata-me e afirma uma relação muito mais íntima do que me permite viver. A ambiguidade de nossa relação me deixa com a sensação de que a qualquer momento você vai partir sem qualquer cerimônia me deixando como me encontrou.

Sinceramente, de certa forma não acho que esteja errado. Não tenho qualquer pretensão de deixar a cidade.. Então, caso fôssemos algo mais do que somos eu não saberia o que fazer, diante de sua partida.Talvez seja apenas o desejo de realizar o mandato imposto pelos contos infantis do 'felizes para sempre'. Sim, sou independente e moderna, mas até mesmo por isso não posso deixar de afirmar que os mandatos me assolam, como a maior parte de nós, sendo que para as que têm autoconsciencia não é possível negá-los. Você mesmo tem suas crenças e mandatos que deixa à mostra – ainda que inconscientemente – vez ou outra.

Bom, meu amor. Não vou me alongar hoje, amanhã o seminário de altos estudos me espera e ele é condição para meus próximos passos na carreira.. Espero que volte em breve para sentir você novamente em meu corpo. (Piegas, sim, mas verdadeiro).

Saudades,

Anita

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Pinguim

Sinceramente?
Não sei.
Só sei que é assim.
Eu buscando você,
você escapando de mim.

E o pinguim continua esperando por uma geladeira

[sobre a qual - absoluto - reine]!

Travessia



O real da vida se dá, nem no princípio e nem no final.
Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.
Guimarães Rosa



...mas toda travessia tem um princípio. Um primeiro passo, um lugar de partida. O real pode não estar nem no princípio, nem no final, como diz Guimarães Rosa. Nem no ponto de partida, nem no de chegada. Mas sempre haverá o ponto de onde se parte e esse ponto é determinante para os rumos que se vai tomar no trajeto.

Posso não saber para onde vou, mas preciso saber de onde venho. Em que ponto nossas retas se encontraram.

Então, qual o nosso ponto de partida?

Somos retas paralelas? Estamos caminhando sozinhos e decidimos partilhar um pedaço da estrada para ocupar o vazio ou decidimos de fato fazer o caminho juntos?

Chegar, não sei onde. O caminho vai nos mostrando. Atalhos, desvios, pontes, rios, mares, não se sabe o que teremos pela frente. Mas o ponto de partida, esse é fundamental conhecer.

Ele é definidor de como enfrentaremos os desafios e desvios do caminho.

Então, pergunto: De que ponto você quer partir?



TODA MULHER TEM DIREITO A SABER DE ONDE ESTÁ PARTINDO, MESMO QUE NÃO SAIBA PARA ONDE.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Renascer


''(and I) Ride the winds of a brand new day
High where mountain's stand
Found my hope and pride again
Rebirth of a woman

Time to fly'' (Rebirth - Angra)




Ontem assisti o [re]nascimento de uma mulher.

Eu vira todo o seu potencial dilacerado
exposto numa ferida rosa e carmim.

Agora estavaa inteira
só  como É.

Mulher talentosa,
vibrante,
Afeto
Sabores e sorrisos

Ontem assisti seu [re]nascer
E cheia de esperança
Voltei ao ninho.


TODA MULHER TEM DIREITO A RENASCER E A REINVENTAR SUA HISTÓRIA!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O Gosto

Outro dia uma-amiga-de-uma-amiga-minha contava que não consegue cozinhar só para ela. Nos fins de semana, quando não sai para almoçar com amigos ou amigas – ou ambos – acaba se alimentando de tudo-e-qualquer-coisa que encontra na geladeira. Argumentava, que não vê graça em preparar uma refeição completa para si mesma, preparar a mesa e comer sozinha.

Pensando sobre o tema, busquei referências para falar sobre o assunto. No último sábado, por exemplo, comecei a preparar a refeição ao meio dia, terminei o cafezinho – aromatizado com amêndoas – às quatro da tarde, no sofá, completamente satisfeita (e sozinha). Desde a escolha do menu, passando pela compra dos ingredientes, a decoração da mesa e à escolha da música, tudo foi minuciosamente selecionado com a finalidade de me proporcionar um momento de afetividade e magia.

Aprendi em casa que comida é expressão de afeto. O ato de cozinhar é declaração de amor. Cozinhar é linguagem. O tempo e a energia dedicados à preparação de um prato, a forma de apresentação, o cuidado com a arrumação da mesa, a harmonização do prato com a bebida e a música, com o clima fala sobre a relação entre quem prepara e para quem se prepara.

Cozinhar, para mim, é: Pura Magia. Combino elementos com sabores, com texturas, com aromas e com cores diferentes. Essa combinação tem algo de alquimia e de intuição. Os elementos e os sentidos são equibilibrados num bom prato, porque a nutrição é antes de tudo equilíbrio e o paladar não é um sentido solitário.

Ao contrário, a ele estão inexoravelmente associados o olfato, o tato, a audição e a visão. A refeição é, portanto, integração dos sentidos com tudo o que compõe o momento. Por isso mesmo, deve ser vivido com consciência e presença.

Pode ser ainda oportunidade de reunir pessoas queridas para confraternizar, compartilhar o tempo, as idéias e o prazer da comida. Esses encontros, regados a boa bebida, a leveza e a alegria são oportunidades incríveis de pausar a vida e entregar-se ao hedonismo pleno.

E aí vem a questão: É possível extrair prazer, afeto e nutrição quando se está sozinha?

Ixi, claro!- Não hesitaria em responder. Importa saber, no entanto, o quão importante você é para si mesma, o quanto de estima e cuidado tem por si. Quando a auto-estima está em alta, fica fácil dedicar poucos minutos ou horas preparando uma deliciosa refeição, arrumar uma bela mesa, com direito a melhor louça e as taças incríveis de cristal – presente especial do último Natal - com direito a flores, criar um clima, escolher trilha sonora, especialmente para si. Esta é uma manifestação inequívoca de cuidado e afeto.

Escolher os melhores ingredientes, equilibrar os elementos da refeição para que seja nutritiva e saborosa; preparar com atenção e com desejo; temperar com o coração, sentindo a seleção de especiarias e compensando sal, doce, ácido e básico – yin e yang – optando por aromas harmônicos. Arrumar o prato ‘’como se fosse um ramalhete de flores do campo’’ significa nutrição plena do corpo e da alma.


Durante a refeição importa saborear, trazer para as papilas gustativas, o olfato, o tato e, por que não a audição, boas lembranças. Viver o momento, estar presente. Sentir de verdade a temperatura, a textura, o sabor, o aroma. Sentir a música ao fundo, sem ser agredida por ela, é puro prazer. Aposto que não dá nem para sentir o tempo passar ao viver intensamente esse momento inteiramente seu, porque:


TODA MULHER TEM O DIREITO DE RECEBER PRAZER E AFETO – PRINCIPALMENTE DE SI MESMA.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Chega a Primavera

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.(Cecília Meireles)



Sábio ciclo da vida, sábias palavras das avós que desde sempre nos ensinam que não há mal que nunca cabe, nem bem que dure para sempre. No cerrado essa lição é tão perceptível. Os gramados secos e cinzentos são rapidamente substituídos pelo verdejante vivo da primavera que chega. Os ipês amarelos, roxos, rosas, as paineiras todas floridas indicam que há vida em seus troncos secos e aparentemente ocos.

É certo que a primavera chega, como diz Cecília, é certo que a vida não esquece e a terra maternalmente se enfeita para as festas de sua perpetuação.

É, pois, momento de celebrar as cores, os aromas, o novo ciclo de vida. É tempo de amor, romance, passear no parque de mãos dadas e comer pipoca ao ar livre. Tempo de reunir os amigos e as amigas em torno da mesa cheia de afetos, de sabores e de cheiros gostosos e aconchegantes, deliciosamente embalados por vinho branco e fresco levemente frutado - mas não doce, por favor - na temperatura ideal para o clima ameno desta época do ano.

Tempo de guardar as cores neutras do inverno em grandes caixas no alto do armário e vestir-se de cor-de-rosa e jasmim, de amarelo, de alfazema e fazer parte da paisagem alegre da temporada das flores. Hora de cortar os cabelos radicalmente e deixar os cachos livres e soltos para saborearem a brisa do fim da tarde.

É tempo de primavera, de renovar-se, de florir, mas como bem disse o Edu outro dia - compartilhando seus sentimentos aqui - ''É preciso desejar o novo, florar "revolucionariamente", pois o rio não corre parado''. Abrir-se em rosas escancaradamente lindas. Deixar a primavera tomar conta do coração e deixar-se banhar pela energia da temporada, que teimosa invade os vidros dos escritórios, libertando nosso bem mais precioso: o amor, porque



TODA MULHER TEM DIREITO A FLORES, AGORA E SEMPRE.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Tempo e o Vento...

Há dias em que o tempo voa,
Há outros em que as  horas
[preguiçosas]
se arrastam
[lentamente].


Hoje nem começou e o vento balança as cortinas contra o vidro sujo da janela.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O Passado Passou




'O passado passou!'A frase ficou em minha cabeça como uma trilha sonora suave. Com os olhos voltados para trás, uma amorosidade insuspeita tomou conta de mim. Nada. Nada de que me arrependa. Reconheço a humanidade. A menina, a moça, a mulher que fui fez escolhas, agiu e reajiu como fora possível.


Reconciliei-me com o passado. Dele resta amorosidade e compreensão por mim e por aqueles com quem compartilhei o caminho, com quem ainda compartilho a jornada. O passado passou e o que ficou foi acolhimento e gratidão pelas histórias vividas, pelo aprendizado, pelas escolhas, pela experiência.


Ouvi certa vez que as escolhas, como as experiências não são boas ou más.São escolhas e experiências simplesmente. A escolha de hoje foi um texto com gosto de brisa de fim de tarde, com jeito de pôr-do-sol no Arpoador, com cheiro de chuva POR QUE


TODA MULHER TEM DIREITO A RECONCILIAR-SE COM O PASSADO

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Pequenos Prazeres




Há um prazer indescritível, como uma brisa suave em fim de tarde, que toma conta de mim quando recebo um livro pelo correio. Sentir seu cheiro, percorrer avidamente todas as linhas das orelhas e da contracapa. Se este livro foi comprado num sebo, aí é melhor ainda. Há uma curiosidade quase infantil por saber se virão notas, grifos ou comentários.


Busco adivinhar-lhe as origens. Descubro pelo envelope que esse maravilhoso exemplar - "Um Teto Todo Seu'', de Vírginia Woolf - veio de um sebo no Paraná, mais precisamente na centro da capital - Curitiba - da Papirus, onde, certo dia, alguém o depositou. Que terá motivado a desfazer-se de tal preciosidade? Terá tido prazer com a leitura dessas linhas esplendidamente escritas por Virgínia? Ou terá sido aborrecido? Foi um homem ou mulher que antes o usufruiu?


Folheio despretenciosamente o livro, não em busca de defeitos, mas de pistas sobre outras pessoas que tenham interagido com o ensaio da escritora inglesa. Nada, nenhum vestígio. Será que não causou qualquer sentimento? Ou será que caiu nas mãos de alguém excessivamente metódica e organizada que lavra suas notas em pequenos ou grandes blocos de papel que traz consigo no momento da leitura? Não sei.


Não há como saber. Infelizmente. Eu, de outro lado, sempre deixo muitos rastros por onde passo. Não sei ler apenas com os olhos. Preciso de mais. O tato me é fundamental e o diálogo com a autora: indispensável. Grifos, notas, post its coloridos e até manifestações de concórdia, tristeza, dor, exultação: com o olhar, com as mãos ou mesmo em voz alta. Tudo faz parte dessa relação que estabeleço com o livro, com as letras e com a autora. Puro prazer, traduzido em brilho nos olhos e sorriso sutil. Pura felicidade.


Quem me lê poderá achar que sou apegada aos livros. Não posso dizer que sou. Na verdade eu os amo e por amá-los quero-os livres para voarem e pousarem em outros cantos, para dialogarem com outros leitores e fazerem felizes - ou não - outros corações. No entanto, é de registrar que alguns exemplares são tão caros a mim, pela relação que estabelecemos - eu e suas linhas - que não consigo me desvencilhar deles. Guardo-os carinhosamente, cheios de grifos, notas e post its para revisitá-los em algum momento - próximo ou distante - e quem sabe com olhos diferentes encontrar-me com eles. PORQUE


TODA MULHER TEM DIREITO AO (RE)ENCONTRO.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Escrever...

...Escrever, para mim, é uma forma de expugar a dor e organizar os sentimentos.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Você sabia que as tartarugas põem ovos no verão?




E que...


...O Ipê branco é espécie nativa do cerrado e do pantanal brasileiros? Muito apreciado por sua beleza e exuberância, fica totalmente branco quando da floração, que ocorre em geral no mês de agosto e dura apenas dois dias. O ciclo do Ipê branco é de doze meses, quando então ocorre nova floração.

E que...

A gestação na espécie humana cumpre um ciclo de nove meses ou 39 semanas? Desde a concepção, quando se inicia o ciclo, o organismo da mulher passa por numerosas transformações, enquanto o feto se desenvolve até que esteja pronto para o nascimento.


também que...

...O ciclo menstrual inicia-se no primeiro dia da menstruação? A menstruação é a descamação do endométrio, e consequente sangramento. Isto ocorre por que os ovários reduzem muito a secreção de hormônios, e estes, por vários mecanismos, reduzem o estímulo ao endométrio, ocasionando a morte de suas células e a descamação. A cada 28 dias, em média, um novo ciclo inicia.

Pois é...

A vida tem ciclos, há quem diga que a cada sete anos nossas vidas se renovam, e iniciamos um novo ciclo. O ipê branco, assim como outras espécies vegetais, tem seus ciclos - de floração (dois dias) e de espera (doze meses); as tartarugas põem seus ovos no verão, em períodos de doze meses também. Relacionamentos também têm ciclos. Começam com o enamoramento e chegam ao término - em algum momento - sem regras fixas ou períodos pré-fixados, apesar da farta literatura sobre a ''crise dos sete anos'' no casamento.


Venho refletindo há exatos vinte oito dias sobre o final do relacionamento. A reflexão, assim como a dor, foi parte do ciclo de luto inerente ao ocaso desse amor. Passei do espanto, à tristeza, da dor à gratidão. Da dúvida à compreensão. Busquei sinceramente razões para – tal qual num drama mexicano – sofrer. Não sofri. Não sofri por que vivi os últimos dezessete meses uma relação que se iniciou com um encantamento curioso e foi se constituindo - pouco a pouco - na melhor experiência a dois pela qual passei até hoje:companheirismo, carinho, respeito e confiança foram a tônica desse amor.


A despeito do e-mail (sim, ele terminou por e-mail tal qual Gregoire Bouiller), sou grata a esse homem que tanto me ensinou. Ele segurou minha mão quando precisei e me acolheu generosamente em sua casa, quando – longe da família – adoeci e precisei de ninho seguro e aconchegante. O que posso falar dele, senão dos bons sentimentos que o tempo, a convivência e a felicidade, foram tecendo em mim?


De outro lado, sinto-me tranquila porque me dei inteira. Fui meu melhor, todos os dias, a cada dia. Fui companheira, amiga, amante. Nada omiti sobre meus sentimentos, revelei minhas dúvidas, meus temores, meu amor despudoradamente. Estive presente, talvez tão completamente que não tenha sobrado espaço para que sentisse minha ausência. Mas entreguei-me e não me arrependo.


Vinte e oito dias se passaram. Um ciclo de mulher. Momento de descamar as células mortas e preparar-me para o novo ciclo que se inicia.Uma parte de mim se vai, outra surge das entranhas. Não afastarei as boas lembranças, nem o sentimento que ainda me leva a ele, mas vou retomar meu caminho. Escolhi ser feliz, PORQUE


TODA MULHER TEM DIREITO A ESCOLHER.



P.S. Obrigada pelo Post-it.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Hoje vou de... Hygiene

Quem Sangra todo mês!
Não pode ter mêdo da vida nem da morte
Abre a porta para quem quer
Fecha a porta para quem não quer!

(trecho da peça Hygiene, do Grupo de Teatro XIX)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Sétimo Dia

A Missa de 7º dia é uma prática brasileira. Destina-se em primeiro lugar a permitir que parentes e amigos do morto se encontrem. Herança dos tempos antigos, segundo Frei Bento, época em que o deslocamento das pessoas era difícil, não haviam estradas, nem ônibus, nem automóveis, nem avião para trazer os parentes e amigos do de cujus para o velório. Como vivemos num país tropical, o cadáver não podia ficar insepulto por mais de 24 horas.

A igreja, então, adotou a prática de celebrar, uma semana depois do passamento, missa em homenagem ao morto, na qual os familiares e amigos se encontravam para celebrar a renovação e a chegada do parente ao céu.


Sete dias desde ''O Espanto''. É pois tempo de celebrar a renovação da energia afetiva, reacendendo a chama da alegria, da crença no amor e a chegada do 'Espanto' ao céu-dos-relacionamentos-desfeitos.


Portanto, amigos próximos e distantes estão convidados para a ''Celebração do Sétimo Dia de Solteirice'' de Maria. A realizar-se no Bistrot Rayuela, SCLS 413, a partir das 19h, porque


TODA MULHER TEM DIREITO A SEGUIR ADIANTE, VIRAR A PÁGINA E SER FELIZ!

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Minha Verdade





Nasci nômade. Perambulei pelo país, mudando de cidade durante anos. Cada partida, laços desfeitos. A cada chegada, novos amigos. Saberes e fazeres diferentes foram me constituindo. A dor da partida aos poucos era compensada pelas novidades da chegada. Novas cores, novos olhares, novas perspectivas.

Assim fui forjando quem sou. Pegando um pouquinho daqui outro dali. O calor de Belém, com seus aromas exóticos, seus sabores ímpares. O mistério da floresta, a imensidão do Rio. Algo do prazer sem culpa que herdamos dos povos indígenas, nossos antecessores nessa terra brasilis.

A alegria e o sincretismo religioso de Salvador com as construções históricas, as cores vibrantes, a mistura exuberante. A força e a fé do povo das várias nações africanas que vieram povoar o Brasil. O poder das matriarcas do candomblé e a serena maladragem dos capoeiristas. Aos quatorze anos, a mais dramática das mudanças me levou de Salvador - onde chamava o diretor da escola de ''Toinho'' - para São Paulo, onde fui tida como ''petulante'' pela professora de português por me dirigir à coordenadora usando ''você''. Experiência traumática, retrato do choque de culturas, num país plural e diverso como o nosso.


Foi assim que São Paulo entrou nesse caldo. A despeito do trauma, segui adiante olhando o que havia de bom para aprender. Não absorvi a deselegância discreta cantada por Caetano, ao contrário, sorvi uma elegância vanguardista e ao mesmo tempo algo retrô.


Apreendi uma mania estranha de buscar sempre a eficiência, o resultado e a tal produtividade, mesmo sendo adepta da economia solidária, dos direitos humanos e da busca incessante pela igualdade de oportunidades entre homens e mulheres. O bicho da produtividade capitalista me mordeu e me contaminou, deixando um rastro de estresse e aprendizado sobre a importância dos amigos, da família e de respirar para transitar bem nesse mundo.


Mas antes, muito antes disso acontecer, dei um pulinho no Rio de Janeiro. Foi um pulo tão rápido - vivi lá por onze meses - num intervalo entre São Paulo e Brasília. Não pude deixar de notar, extasiada, a energia que toma conta de qualquer de nós - até dos mais desatentos - ao flutuar sobre a baía de Guanabara, em busca do aeroporto Santos Dumond. Salve Tom Jobim e o Samba do Avião. E aprendi a gostar de samba. Aqui, muita atenção! Favor não confundir, estou falando de samba de raiz. Aquele que nasceu e se criou nos morros, nas comunidades cariocas. No Rio aprendi a respeitar meu corpo e seus limites, e, por incrível que pareça, a valorizar quem sou exatamente como sou. Nem mais gorda, nem mais magra, nem mais alta, nem mais baixa.


Feita a paradinha estratégica na meca dos corpos sarados, fui ao encontro daquela que seria minha alma gêmea. Já sem identidade ou selo de origem controlada, sentia-me uma colcha de retalhos, um híbrido cultural sem raiz. Ao conhecer as linhas retas de Brasília, suas largas avenidas, caí de amores pela cidade. Ela, que como eu, era feita de tantas cores, tantos cheiros, tantas influências. Brasília que era, como eu, fruto da mistura de vários povos e que tem - ainda hoje - um fluxo de moradores periódico e regular, mostrou-me que ser várias também é ser una.


Fui assim sendo forjada na diversidade cultural brasileira. Aprendi a olhar sempre para o que há de melhor em cada lugar onde passo. Minha identidade é, como minha digital,única. Sou todos os lugares onde fui, todos os amigos que fiz, todas as histórias vividas. Sou todos os sabores, todos os cheiros, e ao mesmo tempo sou uma. Abro os braços, a cabeça e o coração para o novo, todos os dias. O que não sei, eu crio. Minha verdade? É que a vida não nos dá garantias e que permanente, só a mudança.


TODA MULHER TEM DIREITO A MUDANÇAS.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Espanto


''De repente...
das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.''

(extraído de Soneto da Separação, Vinícius de Moraes)



...Foi a primeira coisa que pensou.
Ecoava em sua cabeça o som do espanto.
Repetiu diversas vezes a palavra enquanto os olhos vagavam pela paisagem ocre


ES-PAN-TO.

Ex.

ExPANTU.

Sentiu em seu peito,
forte e retumbante O som. [Experimente falar em voz alta a palavra].
Ela acontece no peito.
É implosão em forma de palavra.

ESPANTO.
(ISSSSSSSSSSSSSPAAAAAAAAAAAANNNNNNNNNTU)

Depois do espanto, o silêncio.
Câmera subjetiva gira em torno de si.
Daí surge o vazio [que acompanha o silêncio]
Está num filme de Win Wenders.

Por instantes
o som volta a ocupar o espaço.
o vazio

há batida ritmada e forte
[a vibrar o peito]
a tremer as mãos,
a secar a boca.

De súbito ouve[se]
o som da respiração
o sangue correndo nas veias

Ar e som
dentro e fora
Estão juntos.
Estão em si.

Sai.
Anda em círculos
Volta às mãos, o calor.
Sente-se corar

Volta!

E o espanto se faz pranto
derrama-se
desde os cumes até os vales
E o espanto aos poucos
esvai-se.

Vai!


Entrou por uma porta, saiu pela outra, PORQUE


SOBREVIVEMOS A TUDO, MELHORES E MAIS FORTES!

domingo, 9 de agosto de 2009

Carta a Pedro

Pai, que dizer?


Convencionaram que hoje, segundo domingo de agosto, seria o ''dia dos pais''. Bem, você não acreditava nestas datas, não que eu me lembre. Dizia que eram datas comerciais, embora não se furtasse de comemorá-las sempre.


De uns tempos para cá - ponha 'tempos' nisso - você ia para a cozinha e (re)criava receitas incríveis. Ainda hoje as inventa e nos brinda com seu dom alquimista. Por certo está preparando algum prato surpresa e reunindo a família em torno da mesa. Não sem antes agradecer a Deus pelo alimento recebido. Não estou aí, mas gostaria.


Você, embora distante e - muitas vezes - ausente, está tão presente em meus gostos, na cor da minha pele, nas minhas boas lembranças de infância, em alguns de meus hábitos mais corriqueiros. Hábitos de tanto tempo...


... E o tempo foi nos afastando. Estivemos - você e eu - tão longe um do outro. Hoje sinto falta dos livros não comentados, dos ovos quentes não mais partilhados antes do sol nascer, da mão firme segurando a minha quando levei pontos na testa. Sinto falta de almoço de domingo em torno de uma mesa cheia de pequenas desavenças bobas.


Agora te sinto mais perto, mesmo há quilometros de distância daqui. Amo-te e te sou grata por quem sou, pai.


Saudades,

Cacau

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Mudança III - A Batalha Final



Muito bem, hora enfrentar a batalha final. Claro que se você fez os passos anteriores a luta pode não ser um bicho de sete cabeças. Certo é que olhar em volta um apartamento vazio de idéias e cheio de caixas por todos os lados, depois de um dia inteiro coordenando os-moços-fortões-da-mudança, correndo para um lado e outro com um olho no que está fazendo e outro no que eles estão fazendo, é de doer de tão triste. Sim, amigas e amigos, é triste. Dá uma sensação de desamparo que só um banho morno, seguido de um chopp gelado com pizza-altamente-calórica pode resolver.


Essa sensação de desamparo não durará por muito tempo, eu afianço. No dia seguinte, quando o sol entrar na janela do seu quarto, as caixas ainda estarão lá, mas o sua cabeça já estará cheia de idéias para o novo ninho. Aos poucos, vá arrumando cada cômodo, por ordem de prioridade, como ja mencionei no post anterior sobre o tema.


Controle-se, nada de se afobar e começar a arrumar três cômodos ao mesmo tempo. Você terminará por deixar tudo pela metade e garanto que no final do dia estará podre de cansada e com a sensação de que nada foi resolvido. Melhor se concentrar em cada parte, assim as pequenas vitórias serão sentidas como grandes conquistas.


Não se preocupe em decidir onde pendurará aquele quadro-que-seu-pai-pintou-quando-sua-mãe-estava-grávida-de-você ou o primeiro desenho da sua filha. A distribuição da ''coleção'' de arte é a última etapa do processo, isto porque você precisa deixar algo para as amigas do sábado palpitarem. Não ouse desconsiderar esse importante ritual da mulher moderna.


No meu caso, quando recebi as 'meninas' no Pique-Nique na sala, não havia sequer lustre ou lâmpada no aposento. O evento, regado a espumante e acepipes diversos, foi realizado a luz de velas, não só por charme, mas também por causa da precariedade do 'campo de batalha'.


Faça uma lista das providencias prioritárias e tente resolvê-las tão logo seja possível. Concerto de fechadura, instalação de filtro de água, ajustes da rede elétrica, cortina no box são questões de fácil solução e que precisam de cuidados urgentes. Lembre-se de ir ticando a lista ou escrevendo ok ao lado e depois me conte a deliciosa sensação de ver como durante um período quantas coisas você conseguiu resolver só por ter escrito a tal lista de prioridades. Organizar seus afazeres por prioridades faz seu tempo render muito.


... E quando o tempo rende, podemos encontrar as amigas, embaixo de um bouganville, em torno de uma toalha xadrez, com morangos, bombons, espumante e histórias deliciosas de todas nós. Mesmo que seja a luz de velas por que na sua lista faltou colocar: comprar um bocal de cerâmica 'XPTO' para o lustre da sala.

Entrou por uma porta, saiu pela outra e quem quiser que marque outra tarde gostosa como aquela, porque


TODA MULHER TEM DIREITO DE COMPARTILHAR AFETOS COM AS AMIGAS NO MEIO DA MUDANÇA OU EM QUALQUER OUTRA OCASIÃO.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Escrever O quê?


"a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.
Quem sou?
Bem, isso já é demais...."
Clarice Lispector




Escrever?
Escrever o quê, se Clarice já me desnudou, transformando sentimentos e sensações, angústias e desejos em palavras minuciosamente escolhidas?

Escrever como?
Se ela já sabia de minha alma e a traduziu - palavra por palavra - em seus escritos antes que eu sonhasse quem sou?

Leia Clarice Lispector ou veja ''Simplesmente eu, Clarice Lispector'', em interpretação de Beth Goulart.

Por hoje é tudo, e talvez por um bom tempo ainda precise digerir esse sentimento que ainda não tem nome e que me invadiu ao ver 'Simplesmente eu...''

Já não me sabia, agora sei menos ainda.




Respeite os direitos autorais. Se for citar, dê crédito.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Mudança II - A Missão





A missão consiste em conseguir embalar todos os seus pertences gastando o mínimo de energia e detempo para arrumar a nova morada. Organizar o conteúdo das caixas por cômodo é, na minha experiência, a melhor pedida. Significa dizer que os objetos de cozinha devem ser transportados em caixas identificadas como ''COZINHA''. Parece óbvio, não é? Mas o óbvio frequentemente precisa ser verbalizado, sob pena de não o realizarmos.


Comece pelos cômodos em que os objetos são menos demandados. Assim, escritório ou estantes de livros, documentos e comprovantes passados podem ser os primeiros a ir para as caixas. Vale a pena lembrar que tais itens costumam pesar bastante, razão pela qual caixas com livros devem ser preenchidas até a metade sendo completadas com almofadas ou travesseiros.


Objetos frágeis podem ser envolvidos com panos de prato ou toalhas velhas, só e somente só, se você não estiver disposta a comprar rolos de plástico bolinha. Por várias razões ter plástico bolinha é melhor, inclusive por que são ótimo antídoto para a ansiedade. Em dias de estresse ele é super companheiro.


Lembre-se de separar mudas de roupa, uma necessaire completa, havaianas, pelo menos um ou dois copos, um canivete suíço e a caixa de ferramentas para o primeiro dia no endereço de destino. Caso não tenha o tal canivete, contente-se com uma faca, mas não deixe de pensar na possibilidade de adquirir um. Afinal, princesas modernas devem ter na bolsa, além da bolsinha de maquiagem um kit ''me viro sozinha, obrigada''. O canivete faz parte.


Marque cada caixa, por fora e com letras grandes, com o cômodo ao qual pertence. Deste modo, quando chegar ao destino não precisará desenhar para os rapazes-fortões-da-mudança onde colocar cada caixa. Agrupe-as por cômodo e prepare-se para a emoção de olhar um apartamento repleto de caixas de papelão por todos os lados.


Por fim, comece a arrumar ou a abrir as caixas conforme a importância do cômodo. Desta vez, comece pelo banheiro, seguido da cozinha ou vice-versa e só então parta para os outros cômodos da nova morada. Esse é o momento de chamar ''as meninas super poderosas'',comprar mais algumas espumantes, conhecer a maravilhosa padaria da esquina - se na sua cidade tiver esquina - e fazer um pique-nique na sala com as amigas. Um dia inteiro dedicado a reuni-las para mil palpites na organização da casa nova, não tem preço. POR QUE:


TODA MULHER TEM DIREITO A DEDICAR O SÁBADO AOS PEQUENOS PRAZERES DA VIDA, ESPECIALMENTE ACOMPANHADA PELAS AMIGAS DILETAS.

domingo, 19 de julho de 2009

Organizando a Mudança I




Mudança, pois é, mais uma. Lá vou eu de novo, casa nas costas. É minha trigésima mudança em 40 anos. Mas desta vez é diferente, embora seja muito igual a tantas outras mudanças. A última foi provisória, nasceu provisória e se confirmou provisória. Agora também pode ser provisório, porque de certo só a morte e as mudanças na vida da gente. Tudo é provisório, mas não necessariamente temos de viver acampados por isso.

Mudar exige organização, planejamento e disciplina. Uma vez que a mudança esteja decidida é importante já começar a planejar. Alguns itens são fundamentais: bloco de notas, caneta, trena e celular. É preciso anotar todas as medidas tanto do lugar para onde se vai, como dos móveis.

Em seguida pense se não é hora de ver o que vai para a nova vida e o que fica. Isto é, o que será doado, vendido, jogado fora, emprestado. Para tanto é importante ter a mão pelo menos 3 caixas grandes de papelão, marcadas por cores diferentes. Sendo: i) levar; ii) doar/vender; iii) lixo. Além disso, pelo menos duas garrafas de espumante ou dois litros de chás variados e amigas - mais queridas - por perto. Separe seus pertences nas três caixas com a ajuda das amigas, embalada por espumante, histórias engraçadas, recordações e muito riso. No final, bem: controle-se para não retirar aquele vestido dos anos oitenta que você não usa há séculos da caixa de doação para a de coisas que vão com você. Deixe o passado para trás. É hora de seguir em frente.


Terceira etapa: Embalar. Para isso também existe técnica, mas sobre esse assunto vou falar no próximo post. Ainda não fiz a segunda etapa de minha nova mudança. Preciso agendar com as amigas.

Entrou por uma porta e saiu pela outra, quem quiser que conte outra porque

TODA MULHER TEM DIREITO A MUDAR: DE VIDA, DE RUA, DE CASA, DE NAMORADO... MUDAR DE RUMO.

Não à Intolerância

Amar, verbo intransitivo.

Diga não à homofobia, apóie o PL 122 e ajude a construir uma sociedade mais justa e igualitária em nosso país.


...e lembre-se: Deus, segundo os cristãos, é Pai. Se todos somos seus filhos, então não há como uns serem menos filhos que outros somente em razão de sua orientação sexual, sexo, cor, raça ou etnia. Concorda?

Quem tem filhos sabe, o amor aos filhos é incondicional. Deus, ainda segundo os cristãos, é amor. E se Deus é nosso Pai, então só pode amar a todos indistintamente, incondicionalmente, senão não seria o Deus, o Pai, o Criador.

Amar, verbo intransitivo, PORQUE

TODA MULHER TEM DIREITO A SER RESPEITADA, INDEPENDENTE DE SUA RAÇA, COR, ETNIA, ORIENTAÇÃO SEXUAL, IDADE OU PROFISSÃO.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Lar Doce Lar




''Lar tem algo de útero, é onde a gente se sente bem, aquecido, confortável. É também uma questão de chinelos. Eu acho. E você?'' (Viviane Pontes)


Lar é o lugar onde nos refugiamos depois de um dia duro de trabalho, espaço sagrado onde só amigos especiais tem lugar, onde nossa memória é trazida a público em pequenas ou grandes porções de história. Lugar de aconchego, conforto, prazer.

Lar não é somente um teto seguro onde se abrigar. É o retrato de quem somos do avesso, diz muito sobre nossa forma de encarar o mundo, a vida, as relações afetivas e sociais. Às vezes, tão sutil é a forma de comunicação que nem nós mesmos nos damos conta.

Dia desses entreguei-me ao prazer de deitar no sofá da sala e ficar observando a forma como arranjei algumas lembranças numa prateleira baixa na sala de estar. Conforme olhava para cada objeto percebia que o arranjo contava muito de minha história, algo sobre quem sou. Sobre as origens, as viagens, as preferências e até as contradições e as dicotomias 'nossas de cada dia'.

Impressionante como o enfileirar de objetos pode dizer tanto de nós, e fazer de uma sala, antes vazia de esperança e marcada por desarmonia, um espaço 'humanizado', aconchegante 'que não dá vontade de ir embora'.

A organização dos objetos, um xale sobre o sofá, a harmonização dos quadros, algumas poucas plantas fez do teto seguro um lar.

...Entrou por uma porta e saiu pela outra, quem quiser que conte outra porque


TODA MULHER TEM DIREITO A UM LAR.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

O Lugar do Silêncio



... E a mulher ouviu, como queria, aquilo que não queria.


Encontro quem disse com maestria o que eu quisera ter dito.

Expressei tantas vezes, braços abertos querendo tomar o mundo inteiro, entregue.
Disse por que não tive medo de despir-me completamente diante daquele que a quem entreguei minhas sentimentalidades, meus desejos, meus sonhos.

Aproveito a divina sensibilidade do texto encontrado nos blogs da vida, reverenciando a autora
que conseguiu, melhor que eu, expressar o que ora sinto. Ei-la:


http://www.quelquechose.net/blues/arquivos/000208.html


...Por que TODA MULHER TEM DIREITO DE VER SUA EXPRESSÃO RECONHECIDA

terça-feira, 7 de julho de 2009

Silêncio



É ensurdecedor o silêncio
a espera de resposta

Sim!
Silêncio pode ser ensurdecedor.

Mudez, cruel instrumento
tortura
quem não pode
quem não quer [aventura]
mundo de hipóteses.

Ensurdecedor
momento de decisão.

Não!
O desejo é ouvir.

Ouvir:
O que é
O que não é.

O silêncio é ensurdecedor e...

TODA MULHER TEM DIREITO A OUVIR.

domingo, 28 de junho de 2009

A Mulher Invisível




Se visto pelo dito, é o retrato da esquizofrênia. Roteiro muito bem escrito, direção impecável,elenco impagável. Se analisado com um pouquinho de atenção é a metáfora da idealização do parceiro, tão corriqueira, na maior parte dos relacionamentos. Não nos apaixonamos por um ser diferente de nós, mas por um reflexo de nós mesmos, por nossos ideais. Confundimos o ideal com o real e um dia dizemos ou ouvimos:'Você sequer sabe quem sou, como pode dizer que me ama?'


E é verdade. Ao olhar para trás, qual de nós não se pergunta: 'Afinal, o que tínhamos em comum?' Reflexo da ilusão que viveramos ao nos decidirmos por nos casar com um ideal, uma fotografia de família feliz na parede do quarto. Então nos damos conta de que fantasiamos um sentimento que gostaríamos de ter, por alguém que constaríamos que nos amasse. E eles eram tão diferentes...


Em geral, as mulheres, embora alguns homens não escapem dessa auto-armadilha, entregam-se a relação, atualizando o papel que a sociedade lhes reservou por séculos. Ao fim de alguns anos, depois de muito representar com excelência e a custa de esgotamento emocional a persona ideal, a solidão a dois se instala.


E o sonho acaba, um dos dois acorda e com a mala pronta vai em busca de outro ideal ou de uma vida real. Parte, sem maiores explicações. Para quem fica o mundo cai. Afinal percebe a farsa em que se enredou e de tanto fingir que era a pessoa ideal, acredita que só pode existir no mundo, se validada pelo parceiro. Solidão a dois de dia, faz calor depois faz frio passa a ter sentido.


Que fazer? Ele viveu com a mulher invisível, não enxergava quem estava a seu lado. Inventou um modelo ideal e passou os anos se esforçando para fazer a mulher real entrar na caixa do modelo ideal. Ela, por sua vez, foi uma mulher invisível, que se esforçava para caber na caixinha e quanto mais se espremia lá dentro, menor ficava, mais só se sentia.


Felicidade foi-se embora, mas não há saudade no peito. Hora de reconstruir a subjetividade sequestrada, reduzida e massacrada por tantos anos. Hora de sentir-se novamente pessoa, sujeito de suas escolhas. Sem ser censurada, desqualificada, reduzida ou menosprezada. Hora de redescobrir quem se é, e finalmente, não sentir mais medo. Momento de parar de encolher-se diante do abusador ou qualquer um que queira representar tal papel.


Momento de abrir os braços para o mundo e reconhecer-se única, com qualidades e dificuldades a serem encaradas. Hora de saber como 'gosta de comer os ovos'. Hora de voltar a ser pessoa, momento de deixar de ser a mulher invisível ou a mulher maravilha para ser SIMPLESMENTE MULHER.


TODA MULHER TEM DIREITO A SER (VISTA) COMO REALMENTE É.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Amar, verbo intransitivo




''João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.''



É com Drummond que começo o dia, pensando sobre os encontros e desencontros do amor e em como a expansão do que compreendemos por amor nos abre possibilidades.


Alyssa Jones, personagem criada por Kevin Smith, em Procura-se Amy explica que resolveu envolver-se com mulheres por que acredita que é tão difícil encontrar o amor, que eliminar 50% das possibilidades não lhe parecia lógico. Ainda assim ela se apaixona irremediavelmente por Holden McNeil, que é homem e tem um grande amigo e parceiro na confecção de HQs. Está estabelecido o triangulo de mil e uma possibilidades.


As novas gerações já encontraram essa chave de possibilidades reconhecendo que amamos seres e não a forma como tais seres se manifestam.Quero dizer: João ama Fernando, mas pode amar Suzana e isso não tem nada a ver com o fato de ser homem ou mulher, baixo ou alto, gordo ou magro, negro ou branco. É o sentimento de um ser por outro ser.


Hoje, já não se fala em homossexuais - palavra quase em desuso - mas em relação homoafetiva. E não bastasse, vive-se o amor que é livre inclusive do rótulo. João pode amar Teresa ou pode amar Fernando. Em tempos distintos de sua vida. O conjunto de atributos e ensinamentos de Teresa é importante para João hoje, mas amanhã ele talvez precise aprender por meio da relação a dois algo novo, a partir de outro conjunto de atributos que tenha Fernando.


Uoooooooopa! Afinal de contas tá virando safadeza?! Não, apenas manifestação livre de afeto sem culpa, apenas expressão de sentimentos. Não se deve confundir com defesa de promiscuidade, que diga-se de passagem, existe em abundância na tradicional família mineira, goiana, cearense, amazonense, paulista e assim por diante. O tema não é relação sexual, é relação afetiva. Que fique claro! A defesa é do amor, seja como for que ele se manifeste, livre de culpa, preconceito ou hipocrisia. Principalmente de hipocrisia.


TODA MULHER TEM DIREITO A AMAR INTRANSITIVAMENTE.


Respeite os direitos autorais. Se for citar, dê créditos.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O que é isso, companheiro?!





Nunca fui uma fã da indústria automobilística. Adoro andar a pé, gosto de transporte coletivo, embora tenha usado muito pouco ao longa da vida, e vivo repetindo - há pelo menos 6 anos - 'ainda vou adotar os pés como meio de transporte'. Se ainda não o fiz, foi porque em Brasília temos cabeça, tronco e rodas. Oro todos os dias para que o plano de integração de transporte coletivo do atual governador de fato dê certo, para finalmente tornar meu sonho realidade.


Numa cidade com poucas calçadas, nenhuma esquina e transporte coletivo excludente e, ainda ineficiente, ter carro não é luxo, é necessidade. É bom lembrar, sendo bem pragmática, que carros não são investimentos, nem ativos, são bens de consumo não durável, pelos quais pagamos ainda: impostos, seguro, manutenção, combustível, enfim. Feitos os cálculos, o meu, um veículo do tipo econômico - mais por convicção do que por falta de recursos - me sai cerca de R$13mil reais ao ano.


Há quem diga que é símbolo de status, embora no meu caso, amante das caminhadas e das bicicletas, esteja mais para sinônimo de liberdade numa cidade cheia de fronteiras. Carro é a liberdade de ir, vir, sair ou ficar a qualquer hora do dia ou da noite, de qualquer lugar para qualquer outro lugar. Eu comprei essa liberdade e não paguei pouco, porque a linha econômica de econômica só tem nome, mesmo com redução do IPI. De toda sorte, foi uma escolha e a liberdade de fazer escolhas me faz feliz.


Estava mesmo muito contente por ter finalmente trocado meu Renault Clio 2006, companheiro de viagens e aventuras, pelo novo Ford KA Flex. Apaixonara-me finalmente por ele, depois de conhecê-lo em casa de minha irmã. Ela, uma eterna entusiasta do veículo, nunca teve outro carro desde o seu primeiro automóvel. A compra foi feita a cerca de 60 dias, e junto estava uma amiga - outra apaixonada pelo Ka-rrinho - que aproveitou a redução do IPI e trocou o modelinho tradicional, por um Ka Tech. Recebemos até bouquet de flores na concessionária. Foi lindo!


O carro é feito para mulheres, gracioso, leve - mesmo sem direção hidráulica - compacto por fora, espaçoso por dentro. Enfim, uma graça. Dei um nome a ele: Simba, o carro ninja! Tudo nele lembra um felino; os faróis, a aerodinâmica. Era definitivo, caí de amores. O carro ainda por cima é flex, para quem mora em Brasília, e portanto, roda bastante, é uma grande vantagem.


Hoje cedo, preparei-me maravilhosa para o trabalho, eis que não consigo ligar o veículo. Imediatamente me veio à mente os primeiros veículos movidos à alcool. Lembram? Precisávamos ficar hoooras esquentando o motor pela manhã. Pois não é que deu problema no meu Ka novinho?! Respirei fundo, abri o porta luvas, busquei no manual soluções - em geral eles servem para isso - encontrei um número de atendimento e, feliz, soube que havia uma assistência 24h da Ford. 'Que bom!' - pensei - 'a troca valeu a pena', pois a Renault tinha ótima assistência.


Sendo o carro tão novo, optei por acioná-los a contatar meu 'Seguro Auto Mulher', que certamente me trataria como uma princesa inglesa. Fui muito bem atendida, informaram-me que o guincho já estava a caminho, escolhi a concessionária autorizada de minha confiança para efetuar o eventual reparo. Tudo certo, até o momento em que solicitei um táxi para me levar ao trabalho. Aquela altura, já eram 10h da manhã. Alguém tem a cara de pau de chegar às 10h da manhã no trabalho em plena quarta-feira? Pois é. Começou a epopéia.


'Senhora, no serviço de assistência 24h não está incluído o táxi, já que a senhora está em sua residência. Caso a senhora estivesse no meio do caminho, poderíamos acionar'. Atônita, exclamei, 'mas preciso ir ao trabalho!' Paguei caro pelo carro para não ter de usar taxi, ônibus, metrô e, principalmente, chegar aos meus compromissos no horário. 'Senhora, por gentileza, ligue novamente para o 0800 e faça as escolhas 3 e 5. Lá eles poderão ajudá-la.


'????'


A moça era gentil, fiz como me orientou enquanto aguardava o guincho. Sim, por que sou uma mulher que acorda de bom humor. No outro atendimento, pelo qual esperei vários minutos, informaram-me o mesmo que ela, que como eu estava em casa, não havia previsão de me fornecerem um transporte para o trabalho. Registrei a reclamação e fiquei pensando: 'Que (&*(&¨¨%$$#@%¨*&¨* de liberdade é essa? Pago caro por um carro zero km, para ter a liberdade de ir e vir quando quiser de onde para onde quiser e não ter de pagar táxi, com menos de 60 dias de comprado o veículo, ele falha, e eu, que paguei pelo conforto tenho de pagar novamente para poder ir de casa para o trabalho por que o Ka-rro zero km não funciona!


Durma-se com um barulho desses! Escreverei em letras grandes para que todos entendam como me sinto: A ASSISTÊNCIA DA FORD NÃO ASSISTE ADEQUADAMENTE SEUS CLIENTES.

E... TODA MULHER TEM DIREITO A TER SEU DIREITO DE IR, VIR, SAIR OU PERMANECER RESPEITADO, ESPECIALMENTE SE PAGA POR ELES.



Respeite os direitos autorais. Se for citar - e gostaria que citasse e distribuísse - dê crédito a autora, que não tem medo de ''colocar o bode na sala da Ford''.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Eu namoro, Tu Namoras?

Pomerade: Marc Chagall

''Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil''. (Artur da Távola)



E não é que ele está certo? A quem jure que tem o que comemorar hoje, que encontrou namorado/a, que não estará sozinha ou sozinho esse ano só porque tem alguém para apresentar aos amigos ou quem sabe para duas vezes por semana tirar o atraso. A quem pense que ser uma dupla é namorar, imagina só que ilusão! É certo que vivemos na eterna ditadura dos pares, como já escrevi certa feita. Hoje, inspirada por Artur da Távola, namoro e suas qualidades é o tema.




Há quem pense que tem namorado só porque pode apresentar às amigas alguém. Há, veja que coisa, os que comemoram tal situação. Enquanto do outro lado da cidade, ou mesmo no apartamento vizinho, alguém se entristece porque está só nesta data. Mas há as que saem para comemorar a solteirice, sou dessas - confesso rasgadamente - embora este ano vá comemorar intensamente grata pelo companheiro ao meu lado.




Namoro é estar ao lado, porque acredito que não temos namorado, namoramos com. Com alguém que passeia de mãos dadas num feriado ensolarado pelas ruas da cidade sem destino certo ou para comprar cenouras. Com alguém que segura a mão num momento de fortes mudanças profissionais, no meio de uma noite de insônia. Com alguém que avisa da partida e da chegada quando viaja.




Namorar com alguém é compartilhar o filme cabeça ou a comédia rasgada, viver o silêncio ou dar ouvidos à profunda e incontrolável vontade de falar da parceira, atentamente, por favor. Com alguém se vai a restaurantes ou se pede a pizza da esquina (se na sua cidade tem esquina). Com alguém dividimos o medo, explodimos de paixão, às vezes damos um simples abraço aconchegante. Compartilhamos a vida intensamente, a cada momento, dia-a-dia.




Com alguém damos valor àquilo que é importante para o outro, sem contudo abrirmos mão de quem somos. Namora quem presta atenção naquilo que importa ao outro, dá ouvidos, abre os olhos, estende o braço e abre a mão para sustentar o sonho cor de rosa e jasmim, como Chagall na obra que ilustra este texto. Namoramos quando vamos para a cozinha juntos, tomar vinho e jogar conversa fora enquanto ela - ou ele - prepara algo com carinho super especial.




Namora quem olha nos olhos sem medo, quem come um pote de sorvete Alpino sem culpa, ao lado, disputando cada colherada, fugindo descaradamente da dieta necessária. Quem se aceita e aceita o outro como é - pacote completo - valorizando exatamente quem se é, e não apenas as partes ditas boas.




Namorar é, entre outras coisas ditas e não ditas, viver a cada dia o afeto acolhedor do abraço, o compartilhar do silêncio, a aceitação das diferenças, o delicado respeito à individualidade.




Eu namoro! Tu namoras? Se não namoras, neste dia 12 vá comemorar com os amigos, porque estes são para sempre! Se não há amigos por perto, então, prepare um lindo jantar para si mesma, tome um banho de espuma, à luz de velas, ao som de new age. Abra uma espumante maravilhosa, veja um filme divertido e comemore sua melhor companhia: você!






TODA MULHER TEM DIREITO A NAMORO, A AMIGOS E A BRINDAR A SI MESMA!




Respeite os direitos autorais. Se for citar, dê créditos.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vamos voltar para o agora! Já!




Terminei o penúltimo post dizendo: Só o agora existe. Eis a prova inequívoca.

Para os passageiros do vôo 447 da Air France, desaparecido na rota Rio-Paris, acabou a existência material, tal qual a maior parte de nós concebe. Não há curso no exterior por dois anos, não há reunião de negócios na sede da empresa. Não há comemoração de aniversário ou volta para casa depois das férias.

O minuto seguinte não existiu. Só este instante em que escrevo existe. A vida que eles e elas levaram ficou na lembrança dos que aqui permanecem e virou legado dessa existência, para os que acreditam na vida após a morte.

Os planos e sonhos com os quais embarcaram, desapareceram, assim como seus corpos materiais.


TODA MULHER TEM DIREITO A VIVER AGORA!

Respeite os direitos autorais. Se for citar, dê crédito.

A Linguagem




''A linguagem não é apenas um luxo intelectual, mas uma parte essencial na luta pela libertação das mulheres''. (Mary Daly - 1984 e Julia Kristeva - 1980)




Dia desses ouvi de um amigo o seguinte comentário: ' pô, não só as mulheres têm direito de expressar seus desejos, porque não 'Todo Ser Humano tem o direito a...'? Concordo integralmente com o comentário.No entanto, quando decidi escrever o Blog da Maria não tinha, como de fato, talvez ainda não tenha, clareza sobre a linha que seguiria, mas tinha um norte: Visibilizar os direitos mais sutis, tantas vezes vilipendiados, esquecidos, sufocados pela sociedade, pela cultura e pelos contemporâneos dias corridos em que apenas sobrevivemos.


Ao clamar que TODA MULHER TEM DIREITO... digo sim, que todos os seres humanos têm direitos e rio sozinha do efeito que isso causa cada vez que um homem lê tais textos. Em nossa sociedade o uso da palavra articulada ou escrita como meio de comunicação supõe o masculino genérico para expressarmos idéias, pensamentos, sentimentos e referências a outras pessoas. A linguagem, contudo, como sistema de significação, nunca é neutra, expressa sua cultura e é permeada pelas relações sociais de um determinado momento histórico(Scott, 1990)*. Por isso, esta Maria em sua linguagem acena ininterruptamente com uma idéia.


É de notar que desde a década de 60 começou a ser constatado que a linguagem nas sociedades ocidentais, por ser um sistema simbólico profundamente arraigado em estruturas sociais patriarcais, não só refletia mas também enfatizava a supremacia masculina. Devem estar pensando, 'eita, lá vem o exagero dos discursos feministas'. Calma, não se afobem, mas vamos acompanhar a experiência que vivi a poucos minutos.


Lia eu, feliz, matéria competente e sensível publicada por Época desta semana, a respeito do nascimento da 'primeira nova família brasileira'. Inscrita na seção Sociedade/Justiça e assinada por Eliane Brum, a reportagem trazia a público o caso de Michele Kamers e Carla Cumiotto. Elas pediam o direito de registrarem no nome das duas seu filho e sua filha, gêmeos. O juiz Cairo Roberto Rodrigues Madruga, da 8ª Vara de Família e Sucessões de Porto Alegre, corajosamente decidiu pela coincidência entre direito e justiça, concedendo a elas e às crianças o direito ao reconhecimento legal da família constituída. Percebam os versados em direito que não falei em entidade familiar, eu disse: fa-mí-lia, embora este seja tema para outro texto


A matéria recheada de todo o histórico do casal, das emoções da gestação e do parto, a escolha de nomes, de escola faz uma belíssima apuração do fato. Com sensibilidade e competência coloca diante de nós, homens e mulheres, a importância da família na sociedade, tempos em que o modelo familiar ainda é questionado (e muito). Mostra a relação entre duas pessoas baseada em amor, em decisões partilhadas, em respeito mútuo, independente da orientação sexual do casal. Por fim, traz luz sobre - mais importante - o respeito às diferenças e o exercício cidadão deste direito. Recomendo a leitura da matéria.


No entanto, não por culpa de Eliane Brum, o sistema patriarcal em que fomos criad@s e educad@s invisibiliza a mulher em algumas passagens do texto, chegando a saltar aos olhos em dado momento. A jornalista já no preâmbulo da matéria ao se referir a Joaquim Amândio e Maria Clara diz:
'seus filhos gêmeos',

 o uso genérico, neste caso, mostra a invisibilidade da menina. Em nossa sociedade, lamentavelmente, o sexo masculino ainda é o prioritário. Por que temos de ser chamadas de ele nas formas genéricas? pergunta Carmem Caldas-Coulthard, em seu artigo Caro Colega: exclusão linguística e invisibilidade (2007).


Infelizmente não pára por aí. Quando chegava ao final da matéria, entusiasmada e ainda emocionada com a avançada decisão do juiz e com a corajosa demonstração de cidadania de Michele e Carla ao divulgar sua história, deparei-me com a reafirmação máxima da cultura patriarcal em que ainda hoje estamos mergulhadas, em parágrafo que reproduzirei na íntegra.

A história de Joaquim Amândio e Maria Clara está documentada desde o primeiro Kamers e o primeiro Cumiotto que chegaram ao Brasil. Os retratos antigos dividem as paredes da casa com as fotografias que contam o romance de seus pais (grifo nosso) e seus dois primeiros anos de vida.



Por que o genérico de pai e mãe é pais? Pior, porque o genérico de mãe e mãe (ou pami como quis ser chamada Michele) é pais? Neste caso, não apenas uma mulher foi invisibilizada, mas duas, numa única palavrinha de quatro letras. O lugar do escritor, do crítico, do pensador e do pai está aí para definir o lugar do sujeito que fala em nome da cultura, da cidadania e da hegemonia (Schimidt, 2009). Essas mulheres são sujeito(?) de sua história, protagonistas de uma revolução silenciosa quem vem acontecendo no Brasil, e por uma palavra foram invisibilizadas.


O patriarcado está aí, caríssima Eliane Brum, enraizado em você como na maioria absoluta de nós, mulheres e homens. Talvez seja a razão pela qual, apesar de termos cerca de 81% de mulheres nas principais redações brasileiras, ainda vimos reproduzindo e enfatizando inconscientemente o modelo aprendido na família, na escola, na sociedade em que vivemos: Nossa cultura. Algumas de nós chega a achar chato tocar no assunto. Vale a pena pensar sobre:


TODA MULHER TEM DIREITO A SER VISÍVEL, INCLUSIVE NA LINGUAGEM.


Respeite os direitos autorais. Se for citar, dê crédito.