domingo, 4 de outubro de 2015

Carta sobre a Casa Amarela

Querido Caio,

Algo novo e fresco chega aos poucos. Ainda não sei de quê se trata, nem aflige saber. Estou naqueles dias que importa sentir. Saber aqui não interessa. 

É como se entrasse em uma casa pela primeira vez. Aquela casa amarela que fica na mesma rua em que moro. A que olho de longe todos os dias quando saio e quando volto. E que às vezes não olho, mas sinto perto. 

É como se passasse pela rua, a mesma rua de todos os dias e a porta estivesse entreaberta. Posso ver a entrada e a sala de estar. Sinto-me convidada a espio e o que vejo é uma saleta clara, com poucos adornos e móveis precisos como as palavras em seu muro.

Encho-me de coragem e olho. De súbito me percebo na sala de estar. A curiosidade e o encantamento quase infantis são maiores que a cerimônia. Revela-se aos poucos um salão amplo, com um piso brilhante, que reflete os pés [e pernas] que ali se sustentam. E ainda bem impressionada com o frescor e a claridade que preenchem o ambiente, antevejo umas tantas outras portas - fechadas - umas tantas janelas abertas ou entreabertas e vou me encantando ainda mais com o lugar. Há um suave odor agridoce e envolvente.

Daí… de uma dessas portas entreabertas, através de uma fresca bem estreita, posso ver um fio de prata a reluzir. Surpreendo-me! E sorrio um sorriso discreto e me sinto estranhamente acolhida. Saber que há um fio de prata por detrás daquela porta me faz sentir um tanto íntima. Ainda que timidamente.

E tu, Caio, como te sentes?

Sempre tua,

Anita

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A Menina e o Gato - Poema


foto: Maria Cláudia Cabral

A Menina descobre o mundo
Infinito espaço da sala de estar

Vê o gato.
Encanta-se por seu movimento manso
Fica intrigada
Ansiosa por tocá-lo, assusta-se
Ao assustar-se, o afasta

O gato a olha,
intrigado
Vira-se e segue seu caminho.


A Menina enamorada diz:

''gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?''*




*Álvaro de Campos, Obra Poética de Fernando Pessoa

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Sobre Nós - os Nós


Di Cavalcanti. Mulher deitada e cachorro. 1954. Óleo sobre tela. Acervo Itaú.



Sobre o que significa relacionamento ou relacionar-se com os outros no novo século. Sobre como as pessoas têm visto seus pares. Sobre o espaço individual, sobre o sobrenatural... Sobre o olhar, sobre olhos que se tocam - essa indiscreta invasão.

Olhares.

Sobre pais e mães e filh@s e ti@s e sobrinh@s... Sobre maridos e esposas, sobre companheir@s e parceir@s, sobre amantes, amores, amigo@s. Sobre todos nós.

Os nós.

Sobre como o eu cresce e o tu diminui, sobre como os nós se agravam e gravam as relações com marcas inolvidáveis. Sobre afastamento e aproximação. Sobre como o meu é maior que o seu, que é maior que o nosso, que é muito maior que o dos outr@s, próximos ou distantes. Sobre o contrário.

Crianças.

Sobre como as tardes arrefecem diante das horas que passam, dando lugar à escuridão da noite - queiramos ou não. Sobre como ser diferente da massa pode causar burburinho.

Deus-nos-acuda!

Sobre o afeto, atenção e amizade. Sobre interesse, bajulação e carência e os grandes olhos dos moradores da Matrix. Sobre a ilusão da vida. Sobre perspectivas. Sobre borboletas que voam no jardim, sobre o paraíso e os sonhos. Sobre imaginar um mundo melhor e mais justo. Sobre um lugar onde não hajam lacunas no meio do caminho. Sobre reticências e páginas em branco. Sobre significados. Sobre ter o que dizer e o silêncio. Sobre sentimentos e sen-tidos.

Caminhos

Sobre o querer e o desejar. Sobre Schoppenhauer. Sobre Freud. Sobre Jung. Sobre Caetano.
Sobre razão e sensibilidade - Austen - sobre pensar e agir. Sobre o impulso e o pulso. Sobre a vida, a morte. Sobre escolhas.

Desígnios

Sobre perguntas silenciosas, sentimentos ocultos. Sobre sonhos, desejos, impulsos, caminhos. Sobre a liberdade.

Escolhas.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Hoje vou de... Subway Love







Hoje vou de Subway Love... and Love and love...



Open your heart!



Entrou por uma porta e saiu pela outra. Quem quiser que cante outra!

terça-feira, 28 de julho de 2015

A Menina e a loja de Cristais

Menina em casa de cristais: Encantada, olhos brilhando, sorriso esparramado no rosto. 

Quer tocar, quer sentir, quer vibrar, quer dançar...

See but don't touch!
Touch but don't feel!
Feel but don't fall in love!
Fall in love but don't ...

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A Menina e o Pássaro



De súbito, um canto lindo. Era o cantar de um pássaro. A Menina apurou os ouvidos e com olhos ansiosos buscou a origem do som que a fazia sorrir.

Buscou sem sucesso encontrar o cantor de tão linda melodia no alto das árvores. Percorria cada galho e cada folha em busca dos sons que a encantavam. Seu coração dividira-se entre enamorado e aflito.

Uma urgência em encontrá-lo tomara conta dela até que... Lá estava ele! O mais belo pássaro que já vira. Correu como se pudesse tocá-lo, corria e sorria tomada por puro enlevo.

Chegou bem perto da árvore onde seu amado pássaro cantor aboletara-se. De perto era ainda mais lindo.

Ao apurar o olhar, a menina percebeu que o pequeno pássaro repetia e repetia gestos e sons. Olhos fixos, percebeu tratar-se não de um pássaro vivo, mas de um ciborgue forjado pássaro. Tinha belo canto, linda plumagem azul anil, belos olhos cinzentos. Possuía uma delicadeza ímpar!

Era um pássaro-andróide!  Não se conformou. Subiu esperta no flamboyant que o abrigava - pássaros não contam com a destreza de meninas - e rapidamente atingiu o galho em que se encontrava o falso cantor. Esticou suas mãos em direção a ele e o tomou de súbito. Era plástico!

Olhos arregalados de horror, a  menina, inconformada, apalpava o pássaro, virava-o de todos os lados enquanto seu canto se repetia e repetia e repetia. O que antes era encantador, agora era irritante aos ouvidos dela.

Rápida, ela começou a buscar uma forma de desligar aquela estúpida repetição do falso canto, do inautêntico pássaro. Quis entender o pássaro, abriu, separou as peças - o canto continuava - primeiro as maiores, depois as menores, dissecou cada peça. Desmontou as engrenagens. Queria entender o pássaro. Quanto mais abria as peças, mais clara ficava a  ilusão que vivera. Mas ela não se conformava. E a todo custo tentava entender o pássaro, com tão apaixonante canto, que a enganara.

Desceu da árvore com pedaços de pássaro, com peças e com engrenagens, com um coração de lata e um fio de tristeza tomou conta dela.

Sentou-se aos pés do flamboyant e, deixando os pedaços cair ao lado, chorou. Enquanto as lágrimas vertiam de seus olhos, outros pássaros voavam ao seu redor, outros cantos podiam ser ouvidos, mas ela não os podia perceber, ainda tentando entender o pássaro que não era, a história que não fora, a ilusão que vivera.

Assim, a menina aprendeu ilusão.

Entrou por uma porta, saiu pela outra... Quem puder, que conte outra!




Amar se aprende amando...




O ser encontra um outro 
acha a razão do Ser, já dividido. 
São dois em um, em dez, em mil: Amor, sublime selo 
que à vida imprime cor, graça e sentido. 

E sê-lo é Ser em si

Marc Chagall - Encontro de Almas

terça-feira, 21 de julho de 2015

Oceanos



Les 3 âges de la femme, par Gustav Klimt



O oceano em mim 
águas em curvas e fendas 
à meia luz, à luz do dia 
Ondas vem e vão, 
balanço suave [e intenso]
cresce [e desce]
sobre [e cresce]
os olhos revirados 
Sou sorriso 
...
 alegria e torpor

Voo longe...vou!





sexta-feira, 17 de julho de 2015

A Mulher Ferida



A dor
da ferida quente
da boca ardente 
que me parte ao meio.






A mulher ferida - Maria Cláudia Cabral


um meio amor
 que em parte ardente
numa boca quente
fere sem pudor




quinta-feira, 16 de julho de 2015

O Susto Assusta

Decidi escrever um livro de ficção. Uma grande amiga e poeta paulista me disse 'ficção? Uau! É super difícil escrever ficção!' Muda, não pude deixar de olhá-la perplexa. Era para me assustar? Ou ela se assustou? Não importa a intenção: Eu me assustei! E lá se foram os anos.

Mulheres na Janela - 1929 - Pablo Picasso


Parei e olhei no espelho. Será que seria capaz de escrever um livro de ficção? Assim surgiu a personagem Anita Lopes.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Carta em dia de ventania




Querido Caio X,

Nossas pausas são longas. Senti falta de tuas linhas esculpidas. Há semanas sinto o silêncio vir se aproximando, como que a espreita do momento exato de se instalar com escova de dentes e muda de roupa. Aquele silêncio que empurra o olhar para fora, para longe, para as montanhas e vales distantes. O silêncio que ensurdece e desconecta do mundo.

Tem sido semanas fundas. Dias de frio longo e fino percorrendo o corpo. Dias de brisa e de ventania. Mas frios... sempre frios. Talvez seja por causa do barulho da rua, talvez pela distância das praias, quem sabe pela coação do desapego que desabou sobre tudo o que havia, encaixotando a vida em 60 volumes.

Memórias envoltas em plástico bolha e papel foram uma a uma cuidadosamente colocadas em caixas, assim como sentimentos. [Re]abrir os invólucros é lidar com as lembranças enclausuradas por dias e dias, às vezes por meses ou por anos.

Bride with a fan - Marc Chagall
Emoção à flor da pele e o olhar que condena a expressão dos incomodos a dizer silenciosamente como devo ou não devo sentir os meus próprios sentimentos. Silêncio cresce em mim. Silêncio e distância vão crescendo em mim. E por várias vezes quero parar o gira-gira e brincar de outra coisa. Girar e girar, ver sempre as mesmas paisagens tortas. Sinto-me tonta.

De súbito, percebo o delírio... Em verdade eu não estou sentindo nada. Nem dor, nem medo, nem raiva, nem tristeza... Já não sinto nada, só a presença crescente do silêncio tomando conta dos cantos, preenchendo todas as fendas. Estou aqui, observando. Nem mesmo me pergunto onde o silêncio me levará. Já não importa. Presente é sentir o nada que a ausência de sons traz sem cerimônia. Não há urgências, somente o silêncio da areia que desliza na ampulheta.


Suas pausas são longas. As minhas também. Mas os encontros de nossas letras tem a potência de um extase.

De sua sempre,

Anita Lopes




segunda-feira, 6 de abril de 2015

Eu Garanto...

''Eu garanto que teremos momentos difíceis, e garanto que haverá momentos em que um de nós - ou ambos - vai querer sair fora, mas garanto também que se eu não me casar com você me arrependerei pelo resto da vida por que sei que você é o homem para mim'' (Maggie Carpenter in Noiva em Fuga).



E eu garanto que revirando os rascunhos encontrei esse texto não escrito e me pergunto o que terá me inspirado a escrever sobre o filme, que particularmente gosto, e sobre o tema casamento.

Seja lá o que for que estivesse vivendo naquele momento - será que encontrei ''o cara'' e já nem lembro mais? - Se foi isso, que bom que não casei, não é mesmo?  Vou tentar construir uma idéia em torno dessa crença de ''o cara'' ou em inglês ''the one''.

Há um homem certo para mim ou para ti? Há o cara que magicamente [ou não] vai aparecer na tua vida e te tirar da torre, te pegar pela cintura, colocar na garupa do cavalo branco e te levar em direção ao sonhado felizes para sempre?

Podem me acusar de cética, mas duvido. Duvido de tudo no último período, exceto de que nos colocamos em torres. Sejam torres de afazeres ou torres de exigências, mas algumas de nós se encastelam mesmo. Todo o resto, como dizia, é estória da Carochinha. Não há príncipe encantado e menos ainda ''felizes para sempre''.

O que há é estar aberto ao Amor, mas não falo do amor romântico que em tudo é idealizado. Do amor  construído nos roteiros hollywoodianos há décadas que nos enchem a todos de sonhos inalcansáveis, que findam por contribuir para o fim das potenciais relações reais. Por que Amor é relacionar-se, não é estar num relacionamento, nem usar uma aliança de ouro 18k da H.Stern, nem casar de véu e grinalda ou reformar um apezinho financiado na Caixa.

Relacionar-se é revelar-se em toda a sua vulnerabilidade, é despir-se diante do outro por completo. Amar é abrir irremediavelmente o coração correndo todos os riscos de se ferir, de cair, de chorar um pouco, e na mesma proporção arriscar-se a viver integralmente o ser que se É diante de outro. E desse encontro simplesmente saber-se sendo a própria essência sem o medo de ser abandonado ou enganado. É ser acolhido em sua luz e sua sombra, sem ser julgado, aconselhado ou consertado.

Entrou por uma porta e saiu pela outra... Quem puder que comente outra!



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