segunda-feira, 20 de junho de 2011

A Farsa - Carta de Anita para ''Caio X''

Caio X,

Eu confesso, menti! Sou uma farsa. Tantas vezes te torturei, te condenei e te esculhambei por teres mentido para mim. Bradei aos quatro ventos que precisava de verdade e que sem ela não havia possibilidade de afeto ou amizade... Para, exausta, me colocar aqui, agora, diante de ti e confessar sem pudor que menti. 

E as mentiras começaram muito cedo. Sem coragem para admitir minhas escolhas [sim, sou covarde!] e enfrentar a família que muito esperava de mim, escolhi a profissão considerando que para ser, era necessário antes de tudo representar. Falsa verdade. 

Segui a mentira ao investir nessa e não em outra profissão, por que para essa eu estava pronta [sabia que seria aprovada no exame seletivo], as outras possibilidades eram o risco de descobrirem que eu não era mais que uma aluna  mediana, cuja genialidade residia em fingir tão completamente que chegava a convencer que era genial, sem contudo poder sê-lo. [sim, sou medíocre].

Aprovada, como esperado, lustrei a máscara: Agora era universitária! 

Mas é difícil o ofício de atriz. Exige disciplina e concentração, por que é necessário tornar ficção algo verossímil. A platéia precisa ser convencida de uma verdade inventada. Às vezes cansei, parei criando razões  dentro da trama para parar. Seguia adiante em seguida: o show tem de continuar! [sim, não podia decpecionar]. Acumulando prêmios por boa interpretação, enchendo baús de tristeza e frustração no escuro das cochias.


Sabe, Caio X, certa vez uma linda atriz, ao ser perguntada sobre que profissão teria se não fosse atriz, respondeu: ''eu quis ser tantas coisas que só poderia ser atriz''. Naquele momento tive um flash, tonta respirei e me vi representando na vida, sendo tantas coisas, sendo coisa alguma.



Mas assim segui vida a fora, sendo tantas coisas e admirada em tantos lugares. A verdade é que jamais fui, sempre representei. Fiz papel de competente, inteligente, criativa, articulada, fiz pose de mão de ferro, de reflexiva, mas a verdade é que não passo de uma atriz fracassada que fez de sua vida um palco e de tanto interpretar a realidade e de representar papéis já não sabe quem é.

Talvez tenha desejado tantas vidas, tantas experiências, e por não poder vivê-las decidi representá-las e assim, abri mão da minha verdade. Passei acreditar nas mentiras que eu mesma contei, convencida pelo convencimento que causava, pelos aplausos e  pelas críticas. [sim, muitos acreditaram em mim].

Tudo isso para dizer, que não posso culpá-lo por representar Caio Marques, seja lá por que motivo, eu representei tantas Anitas e sequer sei quem realmente sou. Mas meu nome, afianço, é este mesmo, então que tal tirarmos as máscaras, nos despirmos completamente e sermos, só por hoje, apenas dois nomes verdadeiros, sem pintura e revelarmo-nos um ao outro? 

Qual teu verdadeiro nome, afinal?

Abraço,

Anita Lopes [ou seja lá quem eu for].

P.S. O verdadeiro Caio Marques contatou-me. Ele está descobrindo quem é.







Um comentário:

  1. Que desconstrução é essa???
    Fantástico o texto.
    Na alma. Visceral.

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