terça-feira, 19 de outubro de 2010

O Poderoso Chefão: Receita Inesquecível num Clássico do Cinema




''Um homem que não se dedica a familia





nunca será um homem de verdade''.



( O Poderoso Chefão, parte I, 1972)



The Godfather (no original) se tornou um épico, recheado de momentos inesquecíveis do cinema. Cenas como o tiroteio na barraca de frutas, o assassinato no restaurante, Don Vito no canteiro de tomates, toda a seqüência de Michael na Sicília e muitas outras, então vivas na memória dos cinéfilos mesmo quase 20 anos depois de seu lançamento.


Uma dessas cenas marcantes para mim, que amo receitas e cinema, é aquela em que um dos 'funcionários' de Don Corleone está preparando um espaguete e conta ao Michael, filho dileto do don, os segredos da receita tradicional italiana.


''primeiro refoga o alho e a cebola, junta as almôndegas, tomates frescos, e, claro, um pouco de polpa de tomates, tempera com sal, basílico e...'' vem o segredo revelado pelo cinema: junta uma colher de açúcar.


Infelizmente o homem precisa sair urgente para fazer um serviço  para o capo, nos deixando apenas o aroma e o sabor do espaguete a preencher a imaginação.


Na minha experiência sugiro que o alho seja aduzido apenas depois que as almôndegas já estejam quase douradas, antes de juntar os tomates frescos, a polpa e o manjericão. Isto porque, se juntamos antes o alho certamente irá ficar dourado demais, deixando um acento amargo marcante no molho. 


A massa, claro, deve estar ao dente. Esse ponto garante a manutenção da alma da pasta: firme, mas não crua e deve ser acompanhado de parmesão ralado na hora. 


A receita foi testada, e aprovada por Bella e Bito - os filhotes de plantão - num sábado à noite de família reunida. 


Para quem vai experimentar: Bom apetite!


Se você também tem uma receita bacana que viu em filmes, me conte. Vamos trocar figurinhas e publicar aqui as melhores receitas do cinema.






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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Diário de Bordo - Lisboa II

A viagem a Lisboa foi uma pausa na vida. Embora tenha ido a trabalho para A Coruña (é assim mesmo que se escreve em galego) e tenha tido uma reunião em Lisboa, todas as outras horas de minha estada em Portugal foram dedicadas a aproveitar os dias. 



Dias quentes aqueles,  jamais tinha ido à Europa no verão. Só de lembrar meus olhos se enchem daquele brilho distinto, e  deslizam lânguidos para o alto, buscando dar corpo às lembranças dos dias idos. 
Sentia-me feliz e abençoada só de estar ali, sentindo o tempo passar por mim preguiçoso, enquanto eu, feito criança, saltitava aqui, ali e acolá. 














Visitar o Museu do Fado foi uma experiência incrível. Confesso que entrei um pouco pelo tema e muito pelo calor que fazia fora. Sabia nada sobre o fado, exceto que é música tradicional lusa, que Chico Buarque compusera um e que Amália Rodrigues é uma de suas deusas. É claro que conheço Madredeus, que gosto sem saber se é fado ou não, mas me dêem licença poética para exagerar sobre minha ignorância a cerca do tema, afinal isso me garante algo de mágico à narrativa.



A ordem dada ao Museu não chega a ser de todo interessante, no entanto, o quanto aprendi cercada de fado por todos os lados, o quanto senti cada nota percorrer-me a pele, os olhos e os ouvidos num carinho envolvente e melancólico, como um fim de tarde com brisa, sem ser triste.
 
Descobri que há algo de contestação no fado, que nasceu nos portos de Lisboa. Algo que li no Museu e que, segundo alguns, por imprecisão histórica não está expresso, mas implícito aqui e acolá, como se os portugueses não se orgulhassem dessa origem popular e malandra do fado. Confesso aos irmãos do outro lado do oceano, que foi justamente essas origens 'na resistência' que mais me encantaram. 

A cada linha que lia sobre a história do fado em seu museu, lembrava-me da história da capoeira no Brasil, razão de rótulos e comentários que ligavam  sua prática à vadiagem e à vida desregrada das periferias, dos portos em nosso país.

Bebendo um pouco mais na fonte, não pude deixar de relacioná-lo ao movimento hip hop e via, no fado, um irmão bem mais velho do rap, por suas origens e sua história ligada ao povo, às ruas e aos primórdios da globalização construída por Portugal no período das grandes navegações. 

Há, certamente no fado, um lirismo melancólico da gente do lado de lá do oceano, que é fascinante. As horas no Museu passaram sem que eu pudesse sorver tudo o que me poderia proporcionar. Saí triste por não poder ver tudo, mas com uma felicidade intimista, que creio, só o fado pode propiciar. 

foto:Maria Cláudia Cabral
Em frente ao Museu está o Largo do Chafariz de Dentro, em que charmosas tascas servem a esplêndida comida portuguesa - com certeza! Lá, experimentei Ameijoas à Bulhão Pato, iguaria tradicional que enlouquece os sentidos. Estando de frente para o Largo, o primeiro restaurante a sua esquerda, serve as melhores ameijoas que provei em Lisboa, combinadas com super simpático atendimento de Cecília e uma geladíssima completaram mais uma tarde  incrível na capital lusa. Recomendo fortemente a experiência (da capital lusa, do museu do fado e da gelada com ameijoas no Largo).


Se você, como eu, quis saber mais, sugiro abaixo alguns links que tratam sobre o fado:

http://www.edusurfa.pt/Area.asp?seccao=2&area=6&artigoid=7907

 http://pt.shvoong.com/books/1735220-hist%C3%B3ria-fado/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fado

http://youtube.com/fado




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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Há Muitas Marias em Mim


Há muitas Marias em mim:

Maria das Graças, Maria Das Dores
Maria Aparecida, Maria Auxiliadora
Maria-Maria
Maria, lutadora

Há Maria Sem-Vergonha
Maria Imaculada,
Maria sonhadora, Maria desbocada


Há Maria Madalena,
Maria Anunciada,
Maria, Marias
Maria, inconformada

Há Maria sem-certeza
Maria gasolina,
Maria sem terra, sem teto
Maria, deslocada

Cadê Maria Coragem
Maria cheia-de-graça
Maria, só Maria
Maria, descolada?

Há tantas Marias em mim,
Tantas que nem sei dizer

Maria faca-na-bota,
Maria, Mariazinha

Cá está Maria, simplesmente Marias.








terça-feira, 12 de outubro de 2010

Feitiço da Lua

No final dos 80 tive a oportunidade de ver Cher no cinema protagonizando um triangulo amoroso com Nicolas Cage e Vincent Gardenia. Era Feitiço da Lua, comédia de costumes de Norman Jewison, lançado em 1987.

Há nessa película algo de inesquecível, a receita de ovo com pão de forma, que trago a vida inteira comigo. Quando quis que meus filhos experimentassem ovo, foi com essa receita que eu os encantei. Eu a chamava Ovo Mágico e eles até hoje, já crescidos, vez ou outra, me pedem para fazer o Ovo Mágico. Foi assim nesse feriado.

É uma receita bem simples, fácil de fazer, deliciosa e boa para aqueles que gostam de dormir até mais tarde no domingo (ou no feriado). 

Posso garantir que também é ótima quando quiser fazer uma graça com o/a namorado/a, servindo um desjejum charmoso. Neste caso, recomendo fortemente que prepare uma bela bandeja e leve na cama, tiro e queda.

Para fazer Ovos Mágicos basta:

  • Ovos
  • Manteiga (por favor, use manteiga e não margarina, salvo se tiver problemas com colesterol ou artérias obstruídas);
  • Pão de forma, preferencialmente integral;
  • Sal à gosto.

É um tanto contraditório fazer questão de manteiga e não abrir mão do pão integral'. Bom, penso que já estou investindo meus créditos na manteiga, então, preciso garantir pelo menos o pão integral.
Para prepará-los, como disse, é simples:

Colocar um pouquinho - pouco mesmo - de manteiga para derreter na frigideira (antiaderente). Tomar uma fatia de pão, remover um pequeno pedaço do centro, formando um círculo de aproximadamente 3cm de diâmetro. Colocar sobre a manteiga aquecida por alguns segundos, virar o pão e colocar mais uma porçãozinha de manteiga dentro do círculo e abrir o ovo nesse espaço. Fogo brando. Tampe para que possa cozinhar por igual, mas...

...Não vai cozinhar por igual, são décadas tentando, acredite. Em algum momento você precisará virar o pão. Neste caso, faça rapidamente e sem quebrar a gema (fica feio). Deixe por alguns segundos, apenas para finalizar o cozimento da clara. 

Deite sobre um prato, com a gema para cima e acompanhe com café, uma fruta e um laticínio, a fim de que a refeição seja nutritivamente completa.


Delicioso e aconchegante. Enjoy it!




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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Receita na Madrugada

Acontece comigo algo curioso quando vou a Porto Alegre, bah! Acordo no meio da noite com alguma receita diferente na cabeça. Este ano fui duas vezes à cidade e foi tiro certo. A primeira foi em maio e era quase uma estréia. Missão de trabalho, mas um trabalho que me encheu os olhos e o coração de alegria. Fui para a Feira Nacional de Agricultura e Reforma Agrária - Brasil Rural Contemporâneo.

Entre tantos empreendimentos de Agricultural Familiar no Brasil, tive acesso a sabores incríveis. Produtos orgânicos ou produzidos a partir de matéria prima orgânica, plantados e colhidos por famílias agricultoras de várias partes do país. Assim conheci Anete, uma figura linda e mágica. Anete cria geléias e antepastos incríveis em Rolândia, no Paraná.

Eu, conversadeira que sou, louca por forno e por fogão, estiquei uma conversinha com Anete entre uma corrida aqui e outra acolá. Papo vai, papo vem Anete me desafia 'E com essa geléia aqui, que prato você faria?'

O sabor era incrível, fresco, levemente ácido, sutilmente apimentado... Hummm. Em fração de segundos vi diante de mim um maravilhoso lombo de filhote, branco e tenro.

- Filhote! - respondi - ficaria maravilhosa acompanhando um lombo de filhote assado, Anete.

-Filhote?

-Sim, é um peixe da Amazônia espetacular, também conhecido na região como piraíba. Carne tenra e muito branca, o filhote pode chegar a 2m de cumprimento e a pesar 300kg e fica excelente assado, grelhado, preservado seu sabor delicado e único. 

Pouco depois despedimo-nos e eu segui o corre-corre do dia e da noite. Cheguei ao hotel exausta, tanto que caí na cama o mais cedo que pude e apaguei. Meio da madrugada meus olhos se abrem alertas. Olho o relógio que luminoso marca 03:25. Sento na cama, tento entender o que se passa. E aí vem...

Lombo de filhote assado, temperado apenas com sal e sementes de coentro moídas, acompanhado de risoto de abóbora menina puxado em leite especial de castanhas e a maravilhosa geléia de Anete. Em fast motion vi o prato sendo preparado bem diante dos meus olhos, enquanto as papilas gustativas se ouriçavam e a boca enchia-se d'água.

Dia seguinte, logo cedo fui procurar Anete. Descrevi a receita em minúcias e disse categórica: 'Vai ficar maravilhoso!' 

 - Estou certa que sim. Um chef que passou por aqui, ao provar a geléia, disse o mesmo quanto ao filhote.


Desde então espero uma alma caridosa que me traga um belo lombo de filhote da Amazônia para que possa materializar a comunicação vinda do além. Filhotes encontrados na Feira do Guará  são pequeninos, medem cerca de 50cm (máximo que já encontrei) não têm o lombo do sonho.Sigo desejando experimentar essa primeira receita vinda do além, a outra já foi testada e aprovada pelos amigos e será compartilhada aqui em algum próximo post.

Por hora, com fome desejo a todos: Bom apetite!







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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Bastardos Inglórios - Eleições 2010BR

''Os Nazis conquistaram a Europa com mortes, torturas, intimidação e terror. É exatamente isso que faremos com eles''. (Aldo Raine, in Bastardos Inglórios).




Hoje me perguntaram qual a diferença entre Aldo Raine (Brad Pitt) e Hans Landa (Christoph Waltz). Disse que enquanto um (Aldo) praticava a violência física, o outro (Hans) praticava a violência psicológica. No frigir dos ovos, apesar de estarem em lados opostos, farinha do mesmo saco. Meu interlocutor então disse que para ele:
- Apenas um deles vencera a guerra.

-Sim - respondi - não há diferença entre eles. Assim como a jovem Shosanna Dreyfuss também não se diferencia de ambos. 

Isto porque, todos, absolutamente todos usaram de violência para expressarem e garantirem sua posição. Embora parecesse que havia dois lados, apenas um foi expresso: vigança e violência. Era preciso vencer a guerra! 

Nós, espectadores do filme de Tarantino, também expressamos: violência e vingança. Afinal, atire a primeira pedra quem não vibrou com a imagem incandescente de Shosanna Dreyfuss na imensa tela do cinema - abarrotado de nazis - em chamas. Naquele instante todas e todos encarnamos a madrasta má de Branca de Neve e rimos o riso da vingança. Sim, há muita humanidade em nós. Tanta que somos feitos de silêncio e de sons, de violência e ternura. 

Hoje, em nosso país, apesar de não estarmos em guerra, a fim de chegar ao 2º turno, assistimos mentira, calúnia, difamação, intolerância contra Dilma Roussef e o PT. Vimos o PIG e alguns setores evangélicos e católicos agirem como nazi facistas incitando o ódio, semeando a discórdia, a mentira e a calúnia. Como vamos responder a isso no segundo turno? Empunharemos as mesmas armas ou superaremos a dor da mentira semeando a verdade?

Para mim, momento de reafirmarmos a verdade e a ética. Momento de nos distanciarmos da história de morte, tortura, dor, manipulação e mentira e reeafirmarmos os sons, mais que o silêncio; a ternura, mais que a violência e seguirmos adiante em direção ao Brasil que queremos. Um país com mais cultura, mais educação, mais moradia, mais emprego e renda, mais saúde, mais transporte e menos miséria. MAIS ÉTICA, menos mentira. Um país que mudou os rumos da história e quer continuar mudando.




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Hoje vou de... Clarice Lispector

Sempre que leio Clarice, sinto-me mais perto de mim. 


"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias." Clarice Lispector.



quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Maria Rita Kehl e a Era das Possibilidades

Vinculo abaixo, o artigo de Maria Rita Kehl, publicado no Estadão e que colocou a moça de joelhos no milho, virada para a parede, lamentavelmente.


Internet, disse outro dia na roda de prosa sobre Culturadigital, é a expressão máxima do que chamo A Era das Possibilidades. Mas para viver esta Era temos de estar prontos para aceitar de fato que a liberdade de expressão  é para todos/as.

Para vivê-la bem, temos de exercitar os ouvidos abertos, a mente e o coração abertos. Estar prontos para discutir idéias e não ideologias. Abrir espaço para o debate que constrói novos caminhos para a qualidade de vida não apenas de nossa espécie, mas de todo o planeta. 

Respeitar as diferenças, inclusive em relação àqueles que estão ''do outro lado'', preservando a ética e o jogo limpo, em que todos/as ganham. 

Afinal, o que há no mundo, há em nós, inclusive ''o outro lado'', revire seus velhos baús e ainda haverá de supreender-se encontrando pensamentos, sentimentos ou experiências em que ''o outro lado'' se mostrou em você.

Não há por que envergonhar-se disso, conhece-te a ti mesmo, já dizia o filósofo, por que só conhecendo o que se passa dentro, entendo, compreenderemos o que se expressa fora.






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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Deus e o Diabo na Terra do Sol - Eleições 2010BR

Enquanto Dilma ia às igrejas católica e às evangélicas para esclarecer que 'não, não era a favor do aborto', Marina Silva, a ''Davizinha'', ia crescendo nas pesquisas por força da ação viral de fariseus que a apóiam. Milhares de e-mails despejados nas caixas de mensagens, veiculados por 'pastores' das igrejas evangélicas que a apoiávam, contendo os maiores absurdos, impropriedades e, inclusive mentiras e distorções explícitas. 

Não sei exatamente em que ponto dessa história toda Marina deixou de ser a aquela que representava a ética na política para se juntar à máxima ''os fins justificam os meios''. Assim como não sei como Dilma, a mulher guerreira, defensora de direitos - das mulheres -  chegou a curvar-se diante do clero. 

O fato é que desde que escolheu quem escolheu como aliado, Marina vem crescendo em popularidade e descrescendo em fidelidade a seus ideais(?).  De algum modo, como Dilma, que ao mitigar às lutas feministas, afasta-se de sua história em nome da vitória. 

Ambas traem a si mesmas, e os/as eleitores/as de Dilma, conscientes da verdade, solidarizam-se com a imolação e erguem-se em defesa do bem maior da coletividade, enquanto eleitores/as de Marina, sequer se dão conta de que ao repassarem mensagens mentirosas com o fito de alterarem a verdade, repetem um gesto tão conhecido dos cristãos: condenam injustamente diante de Poncio Pilatos, em troca da ilusão da vitória.  

Vitória de quem? Naquele caso, o libertado para seguir adiante foi um ladrão. E aqui/agora? Vitória de quem?

Poderia dizer que na minha humilde opinião, de cidadã-eleitora, enquanto Dilma ''se entregou'' a Deus, Marina vendeu a alma ao Diabo. Qual delas afastou-se mais de si mesma, afinal? Qual delas, deixou a luz para deitar-se com a sombra? 

Dilma afastou-se da luta feminista, em alguma medida, mas não da verdade. Ela, de fato, é contra o aborto. E em nome do restabelecimento da verdade, buscou as igrejas.

Marina, no entanto, permitiu que as mensagens desonestas espalhadas pela internet fossem veículo de sua expansão eleitoral, com isso, compactuou com a mentira, com a falsidade, com a falta de ética. Não poderia estar sorrindo, acreditando que fora votada por sua capacidade de ''propor (propôs?) soluções para os ''graves problemas'' do Brasil. Deitou-se com a sombra, entregando sua alma em troca de poder e de prestígio. Prazeres tão mundanos.

Ainda me indigno com o esse tipo de jogo político sujo que usa de mentiras para diminuir a próxima a fim de fazê-la de escada, em lugar de debater a sério os rumos do país.

Embora meu voto não fosse de Marina, eu a admirava antes das eleições. Marina me desapontou ao longo de todo o processo, e ceifou de vez todo meu respeito por ela quando silenciou diante da mentira em nome do acumulo de capital político para seguir no jogo, mesmo fora dele. O que acreditava que havia de melhor nela murchou. Foi cooptada, vendeu a alma ao Diabo por ação e por omissão. 

No frigir dos ovos, o mais importante - e preocupante - é que voltamos a Idade Média, mais conhecida como Idade das Trevas: Eis as igrejas com a faca e o queijo na mão para ditar a quem o povo delegará seu poder soberano.




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sábado, 2 de outubro de 2010

Funcho

Descobri o funcho como alimento recentemente. Tive um estreito contato com ele quando a Bella nasceu. Naquela ocasião havia uma surto em Brasília de funchicória, um pó branco, vendido em farmácias de manipulação que servia para as cólicas dos bebês. Minha experiência com as cólicas da Bella e a funchicória  foi boa, mas não mágica.

Mas, saibam que embora soubesse naquela época tratar-se de um vegetal, assim como a chicória, para mim era um ser de outro planeta. Jamais havia visto aquilo na vida real, apenas em forma de pó.

Eis que dia desses, acompanhando Jamie Oliver, vi pela primeira vez o vegetal aí em cima: Funcho. Ele é uma espécie de erva-doce e todas as suas partes são comestíveis. É um alimento funcional, excelente para o sistema digestivo, sendo também antisséptico. Decidi que ia fazer a tal receita de funcho.

Fui ao mercado comprei um bulbo e pensei: O quê acompanhar? Funcho é excelente acompanhamento para peixes, mas, segundo Jamie acompanha também suínos, cordeiro e frango, além de ser alma gêmea para batatas. Encontrei belos filés de suíno, passeei um pouco mais entre as gôndolas do super e decidi fazer batatas, assim, se Bella não gostasse do funcho havia a opção de uma de suas referências prediletas: batatas assadas recheadas.
foto: Blog As Minhas Receitas


O funcho fiz exatamente como Jamie ensinou no GNT, apenas substituindo vermute por martini. Na verdade escolhi o Martini por eliminação: era o que de mais saboroso havia entre as bebidas destiladas da casa de K. O tempo de forno deve ser seguido à risca para que o funcho fique macio, porém ainda com alma (al dente). Evite deixar passar demais para que não perca o melhor de sua textura crocante.

Preparada a travessa do funcho, separei e pus-me a fazer as batatas. Em geral eu as preparo no forno, sem papel alumínio, embora demore mais, a casca fica super crocante o que confere um som especial a elas. No entanto, como estava testando uma nova receita, não queria que nada desviasse a atenção do funcho. Preferi assá-las no microondas. Funciona bem, desde que a crocância da casca não faça parte de sua wish list.

Vale lembrar que ao assar batatas no microondas é importante fazer furos na casca com a ponta de um garfo, para que não explodam. No meu caso, eram 3 batatas grandes, meu micro já chegou à maioridade - mesmo! - então precisaria de duas sessões de 6 minutos cada. No intervalo virei as batatas. Findo esse processo, abri as batatas e as recheei com bacon bem magro assado, manteiga de verdade e requeijão cremoso. Em lugar do requeijão fica muito bom cheddar, mas não consigo encontrar o tal queijo, apenas arremedos dele nos mercados da cidade. Tendo-as recheado, deixei-as esperando a última forma, enquanto os funchos assavam em forno convencional.

Os files de suíno foram temperados apenas com sal e pimenta do reino e cobertos com generosas rodelas de limão siciliano. Confesso que fiquei viciada neles por causa do Jamie. Jamais havia feito file de suíno, eles estavam abertos em bife, assim decidi grelhá-los, com a eterna preocupação de que a carne ficasse bem cozida, afinal aprendi nos tempos idos - e há muito idos - que carne de porco deve ser muiiiiiiiiiiito bem cozida. Gostaria, talvez, de sentir-me livre dessa crença, já que cortes magros de porco ficam um pouco secos se assados demais.

No final do cozimento do funcho tínhamos os bifes grelhados, as batatas um último minuto no micro, para mesclar manteiga, requeijão e panceta com a maciez das inglesas.

Resultado:

Funchos assados são deliciosos, tem um sabor refrescante, que lembra anis.

As batatas ficaram boas, no entanto, ainda prefiro a versão com casca crocante, além de terem uma cor mais apetitosa, ficam realmente mais saborosas.

Dos suínos, prefiro outras partes. O filé é um pedaço perfeito, sem retoques e, por isso mesmo, previsível. Não há como dar errado, no entanto, tampouco provoca emoções desconcertantes. Filés suínos são como pessoas que seguem todas as regras da moralidade do corpo, não permitindo que sua alma imoral manifeste-se vez ou outra.

Bella experimentou o funcho sem sacrifícios, chegou mesmo a gostar da receita, sem grandes paixões. Segue tendo escancarada preferência pelas batatas recheadas com filé de porquinho.

Autocrítica: Deixei passar um pouco o tempo do funcho, de maneira que ele ficou macio deeemais. Não à toa, recomendei acima obediência cega ao tempo sugerido por Jamie.

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domingo, 26 de setembro de 2010

Virada do Avesso




Senti não só o coração batendo oco, como os pulmões murchos, olhar espantado, mãos frias e a garganta subitamente inundada por uma avalanche que se dirigia aos olhos. Estes, virados para o avesso, cobriam-se lentamente fechando-se para a porta da rua.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Primavera

Sabedoria observar os ciclos da vida e aprender com eles. Somos também nós parte da vida no planeta e vivemos, ainda que não nos demos conta, de tais ciclos.

A vida passa por nós, enquanto passamos por ela numa dança infinita e harmoniosa. Cada estação um desafio. Cada temporada um aprendizado. Assim passam os dias, os meses, os anos. Seguimos adiante bailando ao som do tempo silencioso que passa.

No entanto, há pessoas alheias aos ciclos da vida, não percebem a beleza nem se dão conta do movimento. E insistem em acreditar que ainda estão no mesmo lugar. O mundo gira e lá estão elas tocando as mesmas músicas, repetindo os mesmos versos gastos. O tempo passa tão lento que o som de suas vidas se distorce com um vinil tocando na vitrola em baixa rotação.

Há ainda aqueles para os quais o tempo não passa, a vida não passa. Estacionam num fato, num ato, num caso suas vidas vazias e ali repetem e repetem as mesmas escolhas: um vinil arranhado e melancólico. Há os que seguem bradando os mesmos gritos de guerra, repetindo e repetindo as mesmas crenças, sentados no centro do disco.

O tempo é relativo para cada um. Escolhemos o tempo em que tocamos nosso vinil predileto. Para mim, a primavera chegou, trazendo novas flores nos velhos Ipês do Eixão. Trazendo infinitas possibilidades de realização. Meu tempo é o agora, minha rotação é aqui. Qual é o seu tempo?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O Ipê: resposta a Caio Marques

Foto: Clarita Rickli
Caio,

O Ipê e seus ciclos. Há tempo de florescimento. Tempo de beleza e fulgor. Há tempo de folhas caídas, flores derramadas. Há tempo de galhos magros estendidos para os céus. O Ipê e seus ciclos. Serão os relacionamentos verdadeiramente intensos como os Ipês? - pergunto-me. 

Tivemos todos os tempos. Passamos por cada temporada e agora, mais uma vez, galhos secos estendem-se para o céu, enquanto flores murchas adubam as raízes. Somos Ipês? Por quanto tempo nossas flores - idas e vindas - ainda nutrirão o Ipê?


Não sei, mas gosto da perspectiva de sermos Ipês. Assim, já nem sinto saudades, nem mágoa das flores que caíram sem que eu pudésse sequer tê-las registrado. Dá-nos um sentido de percurso, movimento ininterrupto e livre, dentro de uma ordem natural de coisas. É, gosto de sermos Ipês.

Sejamos Ipês (será que meu humano egoísmo suporta?) floridos ou nus. Sejamos hoje o que somos hoje. Felizes com flores e sem flores. 

Reflexivo afeto,

A. L.



quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Macacos no Sótão

Carpinejar afirmou hoje no twitter 'É frustrante para uma ciumenta namorar um homem comportado.' Foi quando um grupo de macacos sapateadores ocupou meu sótão.  

Formou-se um eco ensurdecedor naquele pedaço de mim e tive de parar para refletir. e sentir. Respirei fundo naquela frase, tentei que cada palavra entrasse pelas narinas junto com o ar e inundasse o sótão, arejasse as idéias. Ainda assim, havia ainda um incômodo. Meu cérebro concorda integralmente com Carpinejar, enquanto meu coração bate a ponta do pé contra o solo e a cabeça balança ao som do tsc, tsc, tsc.

O assunto me lembra Walkíria. O primeiro marido achava que ela não o amava o suficiente por que desde os tempos de namoro o incentivava a ter um tempo dele com os amigos - conversas de bar, jogo de futebol essas coisas - pelo menos uma vez por semana. Ela não era ciumenta e isso o fazia sentir-se menos amado. O coração sorria tranquilo aquelas horas bem vividas dele e dela, cada um experimentando seu próprio espaço. Walkíria* acreditava no amor e na liberdade.

Gostava de dizer que nunca foi traída por ele, embora saiba que até foi. Mas sempre preferiu a ignorância aos pesadelos e às disputas. Não sei se foram felizes, mas certamente, ela teve dez anos de noites inteiras de sono.

Depois que a relação acabou, Walkíria teve alguns parceiros até encontrar um novo companheiro. Dizia-me que com ele desceu ao inferno. O homem era compulsivo por sedução, enlaces, enfim por mulheres. Ela chegou a pesar 44 kg e toda sua tranquilidade voou pela janela sempre aberta às novas aventuras dele. Traições sucessivas a deixaram paranóica e ela não conseguia sair do lugar. Ele era compulsivo por mulheres, ela compulsiva por ele. Depois de três anos de conselhos de amigas e de repetir para si mesma 'ele não vai mudar, sou eu quem tem de mudar', deixou-o em silêncio.

Cinco anos de terapia e abstinência de afeto depois, viu-se diante do mar. Primeiro a ponta dos dedos, um pé, depois o outro. Sentiu cuidadosamente o terreno, deixou-se envolver pela água morna dos sentidos, por fim entregou-se às ondas sutis que a invadiram. Ele era mar calmo, com poucas ondas e nenhuma arrebentação. Confiou como nunca, confiou como antes.

Até o dia que a rede lhe trouxe notícias de uma vida dupla. Ligou aos prantos em  pleno dia dos namorados. Era o fim, dizia ela. Saímos para um chopp e os soluços foram substituídos pela prosa divertidas dos amigos. Terminou a noite começando uma nova trajetória. 

Uma semana depois já estava naqueles braços de novo, ouvindo promessas de amor eterno e acreditando na célebre frase dos incautos 'Eu vou mudar'. Nunca mais foi a mesma e ele, aparentemente comportado, continuou o mesmo. 

Será que ela se sente frustrada por ele estar comportado ou por sabê-lo o mesmo?

*Walkíria é nome fantasia em respeito a privacidade da amiga em questão.



sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Fio - Carta a Caio Marques

Caio,

Todo o silêncio e a distância alimentados durante  os últimos meses ajudaram a ver o quão difícil seria retomarmos o que tínhamos. A viagem para o outro lado do oceano me mostrou  a força das raízes e das origens, os sabores do velho mundo de onde vim a tantos anos fez me viajar em cada acorde de um fado, que longe tocava pelas ruelas do lugar, lembrando-me Alfamas. No entanto, a volta nunca é um retorno, é na verdade um novo caminho. E não creio seja possível constituir um novo caminho contigo, por que agora falta entre nós componente essencial em qualquer relação: a confiança.

A confiança é um fio firme e delicado que uma vez rompido não é possível restaurar sem macular sua delicadeza. É sempre um arremedo, um remendo, um nozinho, uma colagem, um qualquer coisa que tenta, tenta e não consegue dar segurança. O fio entre nós foi rompido e é certo, por mais que tentássemos , jamais conseguiríamos fazê-lo puro e sutil como antes. 

Fostes a lembrança mais presente nos passeios que fiz nesses meses e fostes a ausência menos sentida. Estive em paz comigo até que fantasmas teimaram em aparecer numa noite clara e cálida. Foram eles que sussurraram entre dentes apodrecidos que a confiança não se poderia restabelecer. Despertei suada, com uma tristeza funda querendo assaltar minha alma. Não permiti! Não permitirei que me roubem a alma, que me tirem a paz. 

Somos o que escolhemos - eu e tu - sem meias palavras. Escrevemos nossa história com todas as letras. As palavras que compuseram essa canção foram minuciosamente selecionadas. Foi uma composição a quatro mãos. Escrevi alegria, confiança, paz, harmonia, amor, solidariedade, generosidade, companheirismo e entrega. E tu? Juntastes um punhado de letras bastardas, dessas que vagueiam de casa em casa, sem lar e escrevestes T-R-A-I-Ç-Ã-O. Com o passar do tempo descobri palavras ocultas, esgueirando-se pelas entrelinhas de ano e dia em meias verdades, numa vida dupla: M-E-N-T-I-R-A!?

Como podias esperar que com um punhadinho de versos doces e promessas fúteis pudésse apagar completamente as palavras vadias  que teimastes em colocar em nosso samba. Uma palavra  cantada não volta atrás. Novos versos não aplacam a banalização de uma letra. Apagar, talvez ajude, mas o papel para sempre estará manchado pela afoiteza de atravessar o samba com tão ordinária letra.

Sinto, sinto muitíssimo, mas o samba que quero sambar com minhas sandálias de prata é outro. É samba-canção, samba devotado, quase reservado é samba de avião. Por isso, meu caro Caio, deixa-me agora enquanto ainda nos resta algum sorriso para compartilhar e, até espero, algumas cartas para trocar.


Com afeto,

A.L.






quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Chegando a Lisboa

Uai, foi assim: Desembarquei sonolenta, meio cambaleando, corpo ainda se adaptando ao fuso. Caminhei por um longo corredor, com uma luz que reforçava sua ausência de referências. Diante das paredes nuas e das intermináveis esteiras rolantes, dei-me conta de que havia grandes janelas de vidro, que mostravam sem pudor o sol que nascia. 

Foi nesse instante que respirei fundamente aquela sensação já mencionada de abundância e plenitude. Naquele instante enchi-me de amor e exalei todo o ar dos pulmões, grata pela vida. Sorte minha olhar a vida com olhos de gratidão, por que a fila que se formara para a entrada no país era de fazer chorar. Havia três caminhos, a saber: equipamentos para os portadores de passaporte da comunidade européia novos, com informações eletrônicas - uma ou duas pessoas - corredor para comunidade européia, estados unidos e confederação helvética - havia 5 ou 6 pessoas - e, claro, outras nacionalidades ou cidadãos da CPLP (comunidade dos países de língua portuguesa). Todos os demais passageiros estavam nessa fila. Resumo da ópera: duas horas de espera. Gracias por la vida.

Ainda no aeroporto, decidi comprar um LisboaCard (35Euros), que dá direito a andar de ônibus, trens urbanos e metro gratuitamente por três dias, entrar em zilhões de museus e atrações gratuitamente, além de descontos para todo o resto. Tomei um táxi, minha bagagem não me permitia ir de ônibus, em direção ao hostel Alfama Pátio, dêem uma conferida e vejam quanta sorte tenho. 

O hostel é lindo e o atendimento extremamente simpático. Logo que cheguei fui recebida por uma jovem louríssima, com olhos muito azuis que num português enroladíssimo me dava às boas vindas. Era Martina, uma polaquinha muito gente boa, que se recusava a falar inglês, por que queria aprender o português. Ela me mostrou tudo, levou-me ao quarto que divido com mais 5 garotas (hoje duas espanholas, uma russa, uma alemã e uma australiana). Quarto e banheiro são pequenos, as camas são boliches, como é tradição nos albergues e tenho direito a um cofre - que o hotel 4 estrelas de Corunha não dispunha - e um gavetão com chaves. 

Fico bem ao lado do alpendre que tem maravilhosa vista para o Tejo. O clima no albergue é impressionante. Sinto-me em casa o tempo todo. A cozinha está aberta para prepararmos refeições e  a geladeira disponível para colocarmos coisas, etc.  É muito divertido estar num hostel. 

Além disso estou numa localização que não tem explicação. Fico a alguns metros do Castelo de São Jorge, Largo das Portas do Sol, Feira da Ladra, Escola de Gil Vicente. Enfim, estou no coração de tudo. Quando saí no primeiro dia para buscar um lugar onde almoçar, fui dando-me conta de que estava próxima a tudo. Nada aqui é mais longe que 3km. E, claro que no final do segundo dia, eu já tinha chegado à conclusão de que havia desperdiçado meus 35 Euros.


Bem, funciona assim, se você, como eu, não é uma das maiores ratos de monumento e acredita, como eu, que o prazer da viagem é conhecer a cidade de seus cidadãos, trocar experiência com nativos e comer, andar e tudo mais como eles, então estamos de acordo: não vale a pena comprar o LisboaCard. Eu detesto filas, e o que mais se encontra nos sítios históricos justamente são as intermináveis filas de turistas com suas câmeras fotográficas.  

Sim, tirei muitas fotos até agora, precisarei de horas para organizar e selecionar todas, mas certamente não estará entre elas aquelas que podemos comprar nas infindáveis lojinhas para turistas à venda por ,50CentEuro.


Nesse primeiro dia, tal qual o raciocínio sobre monumentos, não queria me ver refém de restaurantes para turistas, em geral mais caro e com comidas típicas não tão confiáveis. Pus-me a andar e dei de cara com a Tasca do Manel. Lugar simples, cozinha boa. Vou dever a foto do maravilhoso polvo grelhado com camarão que comi nesse lugar simpático, que ademais tem um proprietário que só vendo, exemplo de homem português bonito de dar gosto. Como não peguei autorização, não será possível publicar a foto do gajo, mas estou levando para compartilhar com as amigas, junto com uma cerveja gelada qualquer dia desses. Paguei um preço justo, por uma comidinha bem legal. 


Aliás, a dica de não cair na tentação de ficar calculando em reais tudo o que se faz é uma das dez dicas mais valiosas para o viajante.Mais passeios, o castelo por fora, reconhecimento de área, exercício com mapas ver os casarios antigos, que ora lembram o Pelourinho, ora lembram a Lapa. Observar os raros portugas que transitam por essa área tão turística, foi o divertimento do dia, sob um sol escaldante de 35º. Calor a pino em Lisboa.


A noite a programação resumiu-se, mas não reduziu-se a comer em casa de Tereza, uma bela portuguesa que apenas conhecia pela rede, e que faz parte de uma comunidade da qual eu igualmente agora estou ligada o CouchSurfing* . Como Tereza não podia me receber, porque já estava com casa cheia, convidou-me para jantar com ela e seus hospedes. Foi um momento incrível. Havia Eric(EUA), Bern/Isabela (FR), um outro rapaz da França, Ana (AUSTRIA), César e Teresa de Portugal e Jeny (Áustria). Foi divertido ouvir e falar tantas línguas e, sobretudo, poder cometer erros e ainda assim ser compreendida. 


A noite acabou por volta das 3h da manhã e eu que mal dormia desde que saí do Brasil por não ter ainda me adaptado ao fuso, segui para o Hostel torcendo para conseguir pregar as pestanas. No final, nem foi tão difícil assim, embora o calor enchesse o quarto sem trégua.

Dica do dia: Não compre LisboaCard e curta a cidade mais de perto. Conheça Lisboa!







Diário de Santiago de Compostela

Desnecessário dizer que estando na Galícia tinha de ir a Santiago de Compostela, sua capital. A cidade, mundialmente conhecida em razão das peregrinações, é um primor. Ruas estreitas, prédios antiquíssimos,  janelas estupendas.

É, claro, um destino de turismo religioso, que mostra a força da fé e da igreja católica na mobilização de seus fiéis. Nesse ponto, assusta perceber um comportamento algo alienado e o bom e velho comércio dos objetos santos. 

Eu mesma, passando por Santiago, não poderia deixar de fazer mãe, avó e ex-sogra felizes, por isso tratei de adquirir uns rosários para presentear. Senti-me pouco confortável, mas, como cada ser sabe sua jornada, em respeito a la madre, la abuela y la abuela de los niños, investi alguns euros para um lote no céu.

Além do comércio da fé, desanima o tamanho das filas para a visita (paga) à catedral. Entendam, nem na Notre Dame eu entrei, em razão da fila, não seria em Compostela que o faria. Não sou o tipo de viajante que faz qualquer coisa para carimbar a "cartela dos monumentos visitados", ao contrário, prefiro percorrer as ruas, preferencialmente sair do circuito turístico e tentar, na medida do possível, interagir com os locais, suas histórias e os sabores tradicionais da região. 

Aliás, posso afirmar que tenho tido muita sorte, e por isso sou imensamente grata, porque venho encontrando pessoas incríveis nos lugares por onde tenho passado, dispostas a contar-me a história que está por detrás dos discursos dos guias. 

Em Santiago não foi diferente. Depois de de um tour rápido pelas várias praças e igrejas. Depois de fotografar todos os monumentos e suas filas monumentais, encontramos nossas anfitriãs em Santiago: Ana, Bea e Pilar, da e-burbulla. Aí começou a parte mais interessante da viagem. Ouvimos comentários ótimos sobre a cidade, rimos, experimentamos um autêntico Albariño (vinho típico da Galícia), que lamento não ter comprado para levar ao Brasil. 

Albariño é branco, seco e refrescante. Um vinho que alegra e que traduz um verão como poucos. As meninas de e-burbulla nos passaram uma bela lista de albariños de responsa, embora hoje saiba que não será muito fácil encontrá-los no Brasil. 

Mas o Albariño foi apenas o aperitivo para o que viria depois, logo mudamos de paragem e fomos a um pequeno restaurante de um amigo de Ana, num beco estreito e escondido, em que experimentamos picadas regionais. Pimientos grelhados, peixinhos fritos e, no meu caso, vieiras. A coloquei na boca, pedaço por pedaço deixando que o sabor fosse pouco a pouco tomando conta da boca, claro, pão para passar no prato, limpando os restos de molho. Para acompanhar uma clara com limón - bebida que consiste em meio copo de cerveja preenchido com suco de limão galego. Estupidamente gelado e refrescante a mistura é deliciosa, daquelas que dá vontade de tomar várias. 

A sobremesa não poderia ser outra, pedi a tradicional torta de santiago, mais por uma necessidade incontrolável de experimentar que por fome.  Um leve sabor de laranja permeia a massa fresca e macia de trigo e o sabor vai se abrindo em flores dentro da boca, enchendo de prazer quase sexual quem a experimenta. A torta, especialidade do lugar, é imperdível.

Terminada a comilança, partimos para uma cafeteria debruçada sobre a colina, num belíssimo jardim interno, onde seguimos por toda a tarde entre copas de água, licores e cafés, trocando confidências e sonhos.  As horas passaram lentas enquanto ríamos e contávamos histórias muito nossas, "conversas de menina," histórias de 6 mulheres de diferentes nacionalidades que o destino reuniu em Compostela, naquela tarde de verão inesquecível. 

Fim de tarde, fizemos nosso próprio percurso, uma caminhada por dentro sob o olhar atento e atencioso umas das outras. Merece um brinde: Que o dia em Santiago seja apenas o primeiro de uma série de brindes e parcerias com essas mulheres guerreiras e doces de Santiago de Compostela, de Berlim e de Buenos Aires!

P.S. Sem a foto planejada, mas como todo meu coração.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Diário de Bordo: A Coruña - La Coruña

A Galícia fica  na parte noroeste de Espanha, e talvez alguns não saibam, mas lá se fala Galego, idioma que parece  português com sotaque espanhol. Certamente é bem mais que isso, como se pode perceber abrindo os ouvidos para os sons e os olhos para a escrita. Ali se encontra o mais antigo farol do mundo, o único farol romano ainda em funcionamento.

De toda maneira, não sou o tipo de pessoa que conhece os lugares por enciclopédia. Sempre dou um google antes de partir, vejo clima e principais atrações, no entanto, sou adepta de conhecer as pessoas, a comida, as ruas. Andar como e com os locais, ir aonde vão para de fato sentir a cidade e seu povo. Na Galícia não foi diferente.

Assim, minha primeira experiência foi jantar num restaurante frequentado por galegos, especializado em frutos do mar. El 10, localizado na Praça da Espanha, que me foi muito bem recomendado por Jesus, o motorista que me buscou no aeroporto. Lá chegando, após alguma espera, fui recebida com alguma resistência por um dos garçons. Restaurante cheio e eu querendo mesa para umA. Paciência. Ia comer aqueles mariscos, com certeza. Exercito a calma e digo, sem medo de estar exagerando, valeu a pena. Acompanhada da cerveja local , uma resfrescante Estrella Galícia, servida "a pressão", esperimentei os mexilhões da regiºao, servidos com molho e, a tradicional+issima centolla.

O sabor é adocicado, lembrando um pouco lagosta, a carne tenra e muito branca e odor suave de ondas do mar. Interessante enquanto sujava meus dedos comendo o crustáceo foi perceber que o odor não é forte ou ácido como o dos caranguejos. Ao contrário, é tão suave quanto o próprio sabor. Saboreei cada parte longamente, numa ode ao prazer. Embora só, foram momentos plenos, em que o prazer de sentir a Galícia na ponta dos dedos e na boca me proporcionou uma viagem sensorial nova e aconchegante, provocando sentimentos e reflexões que me fizeram companhia durante todo o jantar.



A diferença de fuso me fez perambular pelas ruas do centro, passar pela famosa Praça Maria Pita, cheia de turistas, por horas ainda, até que fosse, finalmente deitar-me no quarto do hotel. Ainda assim, custei um bocado a dormir, finalmente apaguei por volta das 2h30, hora local (23h em Brasília). Afinal, no dia seguinte faria minha apresentação durante a Festa Dos Mundos seria às 17h, compartilhando a mesa sobre Diversidade Cultural e Sustentabilidade com o coletivo Migrantas, de Berlim e o tema das mulheres migrantas de Cabo Verde e a tradição do batuque não apenas como manifestção cultural tradicional, como também exercício de autonomia e empoderamento, apresentadas pela antropóloga Luzía Oca.




(desenhos do coletivo Migrantas) 

Por fim, aproveitar os shows da programação musical da Festa, depois de mais uma vez experimentar os sabores de A Coruña (galego) comendo  tradicional pulpo*, acompanhado de uma clara com limón (metade cerveja, metade suco de limão - chamado por nós de siciliano e por eles de galego). Experimente a Galícia!

*A foto do fabuloso prato de polvo, fico devendo, por que não pude baixar ainda.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O Princípio da Abundância

Sim, sei que pareceu auto-ajuda esse título. Não, não temo que o conteúdo também pareça. E porque? Bem, por que é o que sinto e o que tenho vontade de compartilhar porque me inundou de uma maneira muito forte quando coloquei os pés no aeroporto de Lisboa - em pleno verão europeu! - no último dia 06 de agosto. Mas essa sensação de abundância não iniciou neste verão, então proponho uma visita rápida no último verão brasileiro (Jan/2010).


Viajei a Fortaleza para descansar muito, curtir muito a praia, o sol e a família, não sem antes receber a notícia de que o departamento de RH da organização em que trabalhava havia cometido um pequeno equívoco em relação às minhas férias e eu não havia recebido os recursos financeiros para tal. Well... Não foi uma boa notícia, mesmo para alguém que ia hospedar-se no sofá da própria irmã.




Foram as melhores férias em muito tempo. Não havia dinheiro, mas quando começo a respirar o ar morno do litoral, logo começo a sentir tudo de bom que aquele lugar poderia oferecer. Havia carona para ir aos lugares, nde ocomer, belíssimas praias para visistar, excelentes companhias para compartilhar os momentos.  Nesse cenário de paraíso, (re)conheci Lupe Duialibe,  que me falou sobre a sensação de abundância.

Estávamos em Canoa Quebrada, um pequeno pedaço de paraíso, no nordeste do Brasil. Águas cálidas, boa comida, gente bonita. Ali ficamos por 4 dias e noites usufruindo dos dias de sol, das boas prosas, da brisa suave que vinha do mar e da vista maravilhosa hospedadas em casa de Adriana.


Mas não parou aí, durante os 30 dias que estive no Ceará, bastava que olhasse com atenção e podia sentir que com o ar, entrava nos pulmões a sensação de abundância. De Canoa Quebrada fomos para o Porto das Dunas, alguns quilometros distante de Fortaleza, onde passamos mais alguns dias no apartamento de Isabel. Nos intervalos das pequenas viagens íamos com Lupe a seus shows incríveis. Foram dias e noites inesquecíveis e, acreditem(!), não foi preciso muito para o que vivemos. Saí de Fortaleza com sensação de plenitude e abundância e me dei conta de que tudo o que vivo pode me trazer esta sensação, e quanto mais a reconheço como possibilidade, mais a sinto em  mim.

Tudo isso para dizer que quando desci do avião  em Lisboa, o sol nascia. Só então me dei conta de que estava pela primeira vez na Europa durante o verão. Voltou a sensação de abundância  e pulsou em mim de tal maneira que pude sentir todo o oxigênio ocupar meu corpo e ampliar-se, saindo pelos poros. Sim, eu estava na Europa na temporada de verão! Graças a um convite muito especial feito por minhas novas amigas de e-burbulla, por sua vez receberam a indicação de meu nome por meio de Angeles Díaz, de la Fundación Simetrías, de Espanha, a qual conheci durante uma palestra em El Salvador  para a qual recebi o convite justamente durante as férias da Abundância.

Logo, claro, a sensação de abundância tomou conta de mim. Dei-me conta, que em verdade uma vez que encontrei o caminho para esta sensação ela permaneceu fazendo parte de minhas circunstâncias (Ortega y Gasset) e por isso sou imensamente grata! Respiro e agora sinto que com todo o oxigênio vem a abundância de uma vida plena de realizações que se renovam todos os dias e a cada dia. 

Então, se pensam que é um texto de auto-ajuda, o que eu posso dizer? Mas estou certa de que é parte da experiência que tenho vivido todos os dias desde o último verão brasileiro, com muita consciência e os pés bem enraizados na Terra. Quis compartilhar, porque abundância gera abundância. Gracías a todos e todas que contribuíram para este momento.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Diário de Bordo - Porto Alegre

Experimentando Porto Alegre novamente, tive a oportunidade de reencontrar o Zaffari e, de certo modo, rever a vivência anterior. 

Pude ainda, praticar meu esporte predileto: provar comidinha de rua  (hei de escrever um guia de comidinhas de rua qualquer dia). Afirmo, sem qualquer dúvida, que experimentei o melhor cachorro quente das últimas décadas. Perde apenas para o dog da minha mãe. 


Como tudo o que se come por aqui, era enorme. Duas saborosas salsinhas (eu não quis o big), abraçadas por pão fofo e quentinho, cobertas por espesso molho de tomades, adornados com milho verde; para complementar ervilhas (uma mania gaúcha), muita salsa picada e uma generosa cobertura de queijo parmesão artesanal ralado. Um espetáculo para os olhos, uma dádiva para o estômago, um afago para o coração. 

Sim, o famosíssimo cachorro quente do Rosário (colégio particular localizado em frente à praça Dom Sebastião), no Centro de Porto Alegre, afaga a alma, trazendo para a boca o gosto de uma adolescência recheada de afeto e alegria.

Mas a experiência gastronômica não se restringiu ao dogão. Visitei também O Moita (Avenida Ipiranga, 2800 - Azenha, Porto Alegre), especializado numa da instituições da gastronomia de rua gaúcha: o Xis. Xis é um sanduíche gigante recheado com ingredientes muitas vezes inusitados, com resultados saborosíssimos. 

Um dos mais tradicionais, o Xis Coração, vem com corações de frango grelhados, alface, tomate, maionese, ovo (opcional), queijo, milho e ervilha (a mania gaúcha). Outros exemplos de recheio são  o estrogonofe (testado e aprovado),  o campeiro (hamburguer, calabresa, coração, bacon) e o Xis Calabresa, que dispensa apresentações. A experiência foi impressionante tanto pelo sabor, quanto pelo tamanho. Eu confesso que não sou capaz de comer um inteiro, fico com um quarto do tamanho e o mesmo sabor de Xis.  

Outra experiência bem bacana no Moita foi a Torrada. Se você pensou em duas fatias de pão de forma crocantes, acertou apenas em parte. A Torrada gaúcha corresponde a um misto quente turbinadíssimo. No meu caso, escolhi uma Torrada de Filé, composta por um delicioso bife de filé, queijo, presunto, maionese, tomates e alface, envolvidos por duas maravilhosas torradas tal qual as conhecemos. 

Tudo isso para afirmar que a comida de rua em Porto Alegre é de primeiríssima qualidade e espetacular sabor. Vale a pena conferir!

terça-feira, 20 de julho de 2010

L'Advsersaire (france, 2001)

O Adversário, dirigido por Nicole Garcia, lançado em 2002 recebeu a Palma de Ouro de melhor filme. Baseado em fatos reais conta a história de Jean-Marc Roman que matou a esposa, os filhos e os pais.

Do drama sai a seguinte frase, escolhida por P.Fendler:  

'' Diga-me Jean, por que as mulheres que mais nos excitam não são aquelas com quem podemos viver?''


O desafio de seguir o projeto é maior que o de Julie Powell. Naquele caso, ela cozinhava receitas de Julia e registrava em seu blog as alegrias e dissabores da experiência. Neste caso, o registro dos dissabores torna a experiência uma exposição em carne viva.

Não sei se por ter perdido o hábito de escrever com regularidade ou se por ter me deixado conduzir pela ilusão de escrever somente por impulso e inspiração, mas o fato é que a frase - notável - não conseguiu arrancar de mim mais que esse desabafo infantil.

Talvez o fato de não estar em casa, perto de fontes de consulta e de um cenário conhecido. Talvez o frio que me gela os ossos, talvez a própria incapacidade de organizar as idéias relativas a tão famigerada expressão.

Cheguei apenas à gênese do pensamento que me conduzia para a vinculação dessa idéia à idéia de arquétipos femininos e o preconceito masculino inconsciente deles ecorrentes.

O que me diria Cadu a esse respeito? Qual seria a posição de Elissa? O que diria Parrode sobre a magnífica frase?

Por onde anda a turma de Cinema, Diversão e Arte nessas horas?